Já serviu para se defender e até matar, e que hoje serve para educar, mas que sempre foi um grito de liberdade e de reafirmação de uma cultura e de um povo oprimido, reflexo da triste história de quatro séculos de escravidão no Brasil.
Os depoimentos dos capoeiras mais antigos evidenciam a mandinga como componente fundamental da capoeira. No contexto da capoeira, o termo mandinga designa tanto a malícia do capoeirista durante o jogo, fazendo “fintas”, fingindo golpes e iludindo o adversário, quanto uma certa dimensão sagrada, um vínculo do jogador da capoeira com o mistério das religiões afro-brasileiras.
A mandinga é um dos elementos que diferenciam as características da capoeira angola e da regional, segundo a visão de alguns mestres. A capoeira regional, segundo eles, tem se distanciado cada vez mais dos elementos mítico-religiosos presentes na tradição africana, salvo algumas exceções. Isso acaba determinando uma estética de jogo e um sistema simbólico próprios, os quais privilegiam muito mais a objetividade do que a subjetividade, a técnica do que a malícia, o confronto direto do que a dissimulação, características estas que, diferentemente das primeiras, se aproximam mais da mandinga da capoeira angola. Isso não quer dizer que não existam alguns desses elementos entre os praticantes da capoeira regional, porém apresentam-se em menor escala.
Um capoeira considerado mandingueiro é aquele que vai “cevando” o outro, ou seja, vai aguardando, sem pressa, um descuido para, então, aplicar seu golpe certeiro. Outra situação muito característica da capoeira angola que traz elementos da mandinga é a “chamada de angola. A chamada é interrompida no momento em que aquele que “chamou” toma a iniciativa de recomeçar o jogo, convidando seu parceiro por meio de gestos característicos. E o jogo se reinicia. A chamada é um momento que sempre guarda um certo mistério durante uma roda de capoeira angola. Numa chamada tudo pode acontecer.
Eu e meus colega da mesma arte, de capoeira,
porque hoje em dia está nos meios social e no
mundo enteiro porque é uma defeiza pessoal de
grande valor que é suas mandinga tracueira para
vencer todas parada que apareiza sendo a hora
sufi ciente si causo não for dezista para outra ocazião
porque eziste outro encontro porque quem
apanha nunca cisquece e quem dá não se lembra
esta é a malícia do capoeirista (p.18). (Mestre Noronha)
Esse componente de magia que reveste o universo da capoeira, embora proveniente desse imaginário popular, expressa o vasto campo de significados dessa manifestação afro-brasileira e de suas ligações com o “sagrado”, assim como muitas das manifestações e tradições presentes no universo da cultura popular no Brasil. A dimensão do sagrado tem para o povo simples de nosso país um sentido muito especial e profundo, que determina suas crenças, seus modos de vida, seus sonhos, suas lutas, suas vitórias e suas derrotas.
A prática da capoeira, nos últimos anos, tem se transformado em mera mercadoria de consumo, vem se “espetacularizando” cada vez mais, perdendo seu caráter mítico, lúdico... Porém, esse processo não se dá sem resistências e oposições. Ao mesmo tempo, vão sucedendo-se importantes experiências no mundo todo que se caracterizam pela afirmação do legado histórico da capoeira, a reverência aos seus antepassados e às formas tradicionais de
sua prática, valorizando e dando dignidade à essa manifestação surgida da criatividade, da crença, da alegria e do sofrimento de um povo.

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