quinta-feira, 10 de março de 2011

Dr. Mestre João Pequeno de Pastinha: a trajetória do negro no Brasil através da Capoeira Angola


Esse texto foi retirado do documentário “Dr. Mestre João Pequeno de Pastinha: a trajetória do negro no Brasil através da Capoeira Angola” filmado entre 25 de janeiro e 05 de abril de 2007, nas cidades de São Carlos – SP, Rio de Janeiro – RJ, Salvador – BA e Uberlândia – MG (dezembro de 2003).
O texto é de autoria de Pedro Braga e Guimes Rodrigues Filho.



            Capoeira é um jogo, uma luta, uma dança de matrizes culturais africanas, que apresenta a dualidade parceiros/adversários, que se confrontam e se completam, uma lembrança festiva dos momentos de liberdade, a mãe que africanamente chora a ausência dos filhos, mas que em sua memória os mantém presentes.
            Os capoeiristas são os elos do presente brasileiro ao passado africano na cerimônia solene de uma roda de capoeira. O negro guerreiro astuto e jogador da vida, traído pela imprevisibilidade do destino e apunhalado pelo descaso alheio, elaborou durante anos o que seria uma de suas principais armas contra a escravidão e a indiferença humana.
            Como uma pedra preciosa sendo trabalhada com todo esmero por seus ourives, a capoeira é a navalha que fere os ideais monarquistas, nos quilombos, uma cabeçada bem colocada nos conceitos de organização coletiva e social, a rasteira precisa nos costumes imperiais, o grito de liberdade das senzalas, nas ruas, nos becos nos cortiços e barracões, transformando, re-significando e dando luz e vida às vozes do passado que ainda ecoam nas academias e rodas espalhadas pelo mundo todo. 
            O capoeirista, enquanto luta, é um cavalheiro, um verdadeiro doutor da cordialidade, o melhor dos exemplos de postura ética de sua comunidade, não por ser corajoso e destemido, mas por ser um combatente em busca de harmonia, da gentileza e da amizade.
            Mestre João Pequeno é tudo isso e muito mais. É o traço quase justo da trajetória do negro no Brasil. Com toda a sua serenidade, paciência e humildade ele é a representação viva do legítimo espírito de ser capoeira e nesse corpo de senhor, agraciado pelo tempo, estão as raízes e as sementes das tradições da cultura africana.
            Um quase valentão com títulos pomposos (“... sou pedreiro, sou pintor, tenho dois títulos de doutor...”) herdados da ancestralidade africana de luta pela liberdade e pela atualidade da luta afro-brasileira pela igualdade racial.
            Paz é uma palavra de ordem instituída pelo Mestre João Pequeno nas rodas de Capoeira Angola atualmente. Sua luta está em ensinar com coerência a homens, meninos e mulheres a se comportarem, enquanto legítimos capoeiristas, como agentes do companheirismo e da cortesia.  
            Foi assim que em dezembro de 2003 a história da Capoeira Angola do Mestre Doutor Comendador João Pequeno de Pastinha o consagrou doutor, que já o era no mundo da Capoeira Angola, Honoris Causa da Universidade Federal de Uberlândia e Comendador da República do Brasil. Foi assim que em 2007, viajando à cidade de São Carlos, interior de São Paulo, re-encontramos o Mestre “capoeirando”, sambando, observando e refletindo; em Salvador-BA conhecemos a história de quem iniciou o aprendizado da reza do desaparecimento com seu pai, primo de Besouro – que reza a lenda sabia essa reza -; a história de quem re-significou o Forte Santo Antônio Além do Carmo, que hoje é o Forte da Capoeira; a história de um dos primeiros habitantes da Fazenda Couto em ato revolucionário de ocupação; a história de quem carrega no seu nome Pastinha, seu mestre; a história de quem dignificou o seu Mestre Pastinha; a história de quem teve seus ancestrais violentamente arrancados da África – nas palavras do Ministro Gilberto Gil, nas nossas andanças na cidade do Rio de Janeiro -RJ, mas soube arrancar da sociedade o seu lugar de direito.
            Assim, nessa trajetória do povo negro no Brasil, a capoeira saiu das páginas dos boletins de ocorrência dos escrivães de polícia no século XIX para o documentário do século XXI de uma das vidas mais importantes da cultura afro-brasileira

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