quarta-feira, 25 de julho de 2012

I Seminário Nacional de Educação e Capoeira Angola de Uberlândia

Uma contribuição para o desenvolvimento da Capoeira enquanto prática pedagógica, apresentando motivos e razões para que essa manifestação cultural afro-brasileira seja incorporada ao currículo oficial da Rede de Ensino.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

De pequeno se fez grande



Aprendi com o meu mestre
Homem forte e valente
O Segredo da luta negra
Não está no corpo e sim na mente

É dele essa ladainha
Homem de grande coração
Maior discípulo de Pastinha
Foi o meu Mestre João

Que de Pequeno se fez Grande
Demonstrando seu valor
Com a humildade de um Mestre
Se tornou até Doutor

Nas rodas de capoeira
Agradecidos todos cantam
João Pequeno hoje joga
Sua Angola em Aruanda . . . Camaradinha !!!

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Doutor Mestre Camisa



No dia 05 de maio de 2011 a capoeira ganhou um novo Doutor, Doutor Mestre Camisa, homenageado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) com o título de Doutor Honoris Causa, um reconhecimento por seu importante trabalho como difusor da cultura brasileira pelo mundo.

Essa Universidade, que em 2003 outorgara o mesmo título a outro grande mestre da capoeira, Mestre João Pequeno, exerce assim, “seu papel em preservar o Patrimônio Imaterial da Cultura Brasileira, que é a capoeira”, conforme explica Guimes Rodrigues Filho, professor do Instituto de Química da UFU e coordenador do Núcleo de Estudos Afro Brasileiros, que esteve à frente do processo de reconhecimento desses dois Mestres.

Além disso, ao agraciar um mestre da Capoeira Angola, Mestre João Pequeno, e um mestre da Capoeira Regional, Mestre Camisa, essa instituição nos deixa um recado: A capoeira é uma só. Quando bem trabalhada, com responsabilidade e ética, seja ela Angola ou Regional, é uma manifestação cultural brasileira, e deve ser preservada e valorizada.

Acompanhei toda a cerimônia de entrega do título à Mestre Camisa, o qual me surpreendeu com seu conhecimento sobre a capoeira. Em seu discurso que, faço questão de ressaltar, não foi a leitura de um texto já formulado, como é de praxi, mas expondo suas idéias e pontos de vista, improvisando e se virando, como capoeira que é, Mestre Camisa ressaltou a capoeira como uma Prática Transformadora e, como ele mesmo frisou, “a capoeira é luta, é dança, é jogo, é arte..... mas acima de tudo, capoeira é Educação e deve estar nas escolas”.

Outro fato interessante foi quando Mestre Camisa falava a respeito do preconceito que as pessoas têm sobre essa arte, que muitos pensam que capoeira é apenas movimentações, saltos, rodas; enfim, muitos desconhecem as várias possibilidades de abordagem que a capoeira oferece, como social, ambiental, educacional, afetiva; e querem falar sobre essa arte e, novamente parafraseando-o, “Se você não conhece alguma coisa, não fale sobre essa coisa sem antes procurar entendê-la”.

O preconceito atual não é o mesmo de antigamente, quando o capoeirista era visto como um vagabundo e marginal, penso até que a imagem do capoeira hoje em dia é uma imagem boa (que pode ser melhorada). O preconceito à que me refiro se dá pelo não reconhecimento da riqueza cultural que a capoeira traz consigo e de sua importância na formação de cidadãos.

O título de Doutor Honoris Causa é um passo muito importante, mas cabe a cada um o dever de se engajar para que, juntos, possamos dar um “rabo de arraia intelectual” nesse pré-conceito que ainda existe, pois hoje, está sobrando bíceps e faltando idéias na capoeira.

Aqui em Uberlândia, nos dois dias que pude acompanhar Mestre Camisa, dia 05 na UFU e 06 na Câmara Municipal da cidade, quando recebeu o título de Cidadão Uberlandense, durante os debates todos os presentes jogaram muita capoeira, mas não houve nem sequer uma única roda.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Repressão à Capoeira ( Frederico José de Abreu )


                
 
                No início do século XIX, no Brasil escravocrata, a palavra “Batuque”era usada para designar qualquer manifestação negra, que se expressava quase sempre mediante a união da percussão com a dança. Essas manifestações negras preocupavam as autoridades, pois causavam desordem, barulho e poderia culminar em movimentos contra o status-quo, como exemplo a Conspiração dos Alfaiates (1798), Sabinada (1831), Cabanagem (1835 – 1840), Balaiada (1838 – 1841)...
                O batuque (samba, capoeira, candomblé e outros folguedos negros) era a forma que os escravos utilizavam para re-encontrar sua humanidade, sua cultura, reprimida pela escravidão.
                Grande parte da elite escravocrata era totalmente avessa às manifestações rudimentares dos negros, o que ia totalmente contra os costumes europeus da época. Porém, o Brasil queria passar uma imagem de país “europeizado” e evoluído naquela época, com grandes cidades como Rio, Salvador e Recife, mas aos olhos do estrangeiro era um país atrasado pelo simples fato de ainda utilizarem-se do regime de escravidão que, já naquela época, era ultrapassado, existindo aí um grande paradoxo (A elite brasileira era contra o batuque porque era um costume rudimentar, contrário a toda “evolução”da Belle Époque, porém, o simples fato de se utilizarem de escravos já era um atraso social naquela época) .

domingo, 13 de março de 2011

Dr. Mestre João Pequeno de Pastinha: a trajetória do negro no Brasil através da Capoeira Angola. (English version)

The following text is part of the documentary “Dr. Mestre João Pequeno de Pastinha: a trajetória do negro no Brasil através da Capoeira Angola” filmed beetwen january 25 and april 05 of 2007, in the brazilian cities of São Carlos – SP, Rio de Janeiro – RJ, Salvador – BA and Uberlândia – MG (december 2003).
The text was written by Pedro Braga and Guimes Rodrigues Filho.
The English version was translated by Daniel Alves Cerqueira


            Capoeira is a game, a fight, a dance of African culture origin, which presents de duality partners / adversaries who confront and complete each other, a festive memory of the freedom moments, the mother who, in an African way, cries the absence of their children, but keeps them present in her memory.
            Capoeiristas (capoeira players) are the links between the Brazilian present and the African past in the solemn ceremony of the “roda” (circle) of Capoeira. The astute black warrior and player of life, betrayed by the destiny’s unpredictability and stabbed by other people’s indifference, elaborated for years what be one his main weapons against slavery and human indifference.
            As a precious stone being carefully sculptured by a lapidary, Capoeira is the razor that injures the monarchist ideals with its resistance on the quilombos, an efficient headbutt, in the concepts of collective and social organization, the precise “rasteira” (sweep) in the imperial habits, the scream for freedom in the senzalas (slave huts), in the streets, in the alleys, in the tenement houses and “barracões”, transforming, changing the meaning and giving light and life to the voices of past which still echo on the healthy clubs and “rodas” throughout the world.
            The capoeirista, while fighting, is a gentleman, an actual Doctor on cordiality, the best example of ethical posture of his community, not for being brave and fearless, but for being a combatant searching harmony, gentleness and friendship.
            Master João Pequeno is all that and much more. He is the trace almost fair of the trajectory of black people in Brazil. With his serenity, patience and humility he is the living representation of the legitimate spirit of being capoeira in this eldery body, awarded by time; he is the root and the seeds of the traditions of African culture.
            An almost gutsy man with pompous titles (“… I am a mason, a painter, and have two doctor titles …”) inherited from the African ancestry of fighting for freedom and from nowadays Afro-Brazilian fight for racial equality. Peace is the word of order instituted by Master João Pequeno on nowadays Angola Capoeira rodas. His fight resides in teaching with coherence to men, children and women to behave as legitimate capoeiristas, as agents of fellowship and courtesy.
            Then, in December 2003, the history of Master João Pequeno de Pastinha consecrated him Doctor Honorary Degree, which he already was in the world of Capoeira Angola, from the Federal University of Uberlândia and Commentator of the Republic of Brazil.
            Then, in 2007, traveling to São Carlos, a city in the interior of São Paulo state, we met again the Master “capoeirando”, sambaing, observing and reflecting; in Salvador – BA we have learned the history of whom initiated the learning of the praying of disappearing with his father, cousin of Besouro – who supposedly knew this praying - ; the history of whom changed the meaning of Fort Santo Antônio Além do Carmo, which today is the Fort of Capoeira; the history of one of the first inhabitants of Couto Farm in a revolutionary act of occupation; the history of whom carries in his name Pastinha, his Master; the history of whom dignified his Master Pastinha; the history of whom had his ancestors violently taken away from Africa – in the words of Gilbert Gil, Minister of Culture, in our visit to Rio de Janeiro – RJ – but knew how to conquer his place in society.
            Thus, in this trajectory of the black people in Brazil, Capoeira left the pages of police reports in the XIX century for this documentary of XXI century about one of the most important lives of Afro-Brazilian culture.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Dr. Mestre João Pequeno de Pastinha: a trajetória do negro no Brasil através da Capoeira Angola


Esse texto foi retirado do documentário “Dr. Mestre João Pequeno de Pastinha: a trajetória do negro no Brasil através da Capoeira Angola” filmado entre 25 de janeiro e 05 de abril de 2007, nas cidades de São Carlos – SP, Rio de Janeiro – RJ, Salvador – BA e Uberlândia – MG (dezembro de 2003).
O texto é de autoria de Pedro Braga e Guimes Rodrigues Filho.



            Capoeira é um jogo, uma luta, uma dança de matrizes culturais africanas, que apresenta a dualidade parceiros/adversários, que se confrontam e se completam, uma lembrança festiva dos momentos de liberdade, a mãe que africanamente chora a ausência dos filhos, mas que em sua memória os mantém presentes.
            Os capoeiristas são os elos do presente brasileiro ao passado africano na cerimônia solene de uma roda de capoeira. O negro guerreiro astuto e jogador da vida, traído pela imprevisibilidade do destino e apunhalado pelo descaso alheio, elaborou durante anos o que seria uma de suas principais armas contra a escravidão e a indiferença humana.
            Como uma pedra preciosa sendo trabalhada com todo esmero por seus ourives, a capoeira é a navalha que fere os ideais monarquistas, nos quilombos, uma cabeçada bem colocada nos conceitos de organização coletiva e social, a rasteira precisa nos costumes imperiais, o grito de liberdade das senzalas, nas ruas, nos becos nos cortiços e barracões, transformando, re-significando e dando luz e vida às vozes do passado que ainda ecoam nas academias e rodas espalhadas pelo mundo todo. 
            O capoeirista, enquanto luta, é um cavalheiro, um verdadeiro doutor da cordialidade, o melhor dos exemplos de postura ética de sua comunidade, não por ser corajoso e destemido, mas por ser um combatente em busca de harmonia, da gentileza e da amizade.
            Mestre João Pequeno é tudo isso e muito mais. É o traço quase justo da trajetória do negro no Brasil. Com toda a sua serenidade, paciência e humildade ele é a representação viva do legítimo espírito de ser capoeira e nesse corpo de senhor, agraciado pelo tempo, estão as raízes e as sementes das tradições da cultura africana.
            Um quase valentão com títulos pomposos (“... sou pedreiro, sou pintor, tenho dois títulos de doutor...”) herdados da ancestralidade africana de luta pela liberdade e pela atualidade da luta afro-brasileira pela igualdade racial.
            Paz é uma palavra de ordem instituída pelo Mestre João Pequeno nas rodas de Capoeira Angola atualmente. Sua luta está em ensinar com coerência a homens, meninos e mulheres a se comportarem, enquanto legítimos capoeiristas, como agentes do companheirismo e da cortesia.  
            Foi assim que em dezembro de 2003 a história da Capoeira Angola do Mestre Doutor Comendador João Pequeno de Pastinha o consagrou doutor, que já o era no mundo da Capoeira Angola, Honoris Causa da Universidade Federal de Uberlândia e Comendador da República do Brasil. Foi assim que em 2007, viajando à cidade de São Carlos, interior de São Paulo, re-encontramos o Mestre “capoeirando”, sambando, observando e refletindo; em Salvador-BA conhecemos a história de quem iniciou o aprendizado da reza do desaparecimento com seu pai, primo de Besouro – que reza a lenda sabia essa reza -; a história de quem re-significou o Forte Santo Antônio Além do Carmo, que hoje é o Forte da Capoeira; a história de um dos primeiros habitantes da Fazenda Couto em ato revolucionário de ocupação; a história de quem carrega no seu nome Pastinha, seu mestre; a história de quem dignificou o seu Mestre Pastinha; a história de quem teve seus ancestrais violentamente arrancados da África – nas palavras do Ministro Gilberto Gil, nas nossas andanças na cidade do Rio de Janeiro -RJ, mas soube arrancar da sociedade o seu lugar de direito.
            Assim, nessa trajetória do povo negro no Brasil, a capoeira saiu das páginas dos boletins de ocorrência dos escrivães de polícia no século XIX para o documentário do século XXI de uma das vidas mais importantes da cultura afro-brasileira

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O Brasil e sua diversidade única, um país de pluralidades – Aplicações da lei 10.639/03



Desde os tempos de Cabral até os dias de hoje somos o sujeito da discriminação racial que existe no Brasil, ora passivo, ora ativo, sem exceção de nenhum grupo étnico e nem mesmo de qualquer pessoa, somos todos responsáveis por esse fato que se desdobra há mais de 500 anos em nosso país. Eu sou, tu és, ele é ...

Porém, é inegável a supremacia dos povos europeus e sua tentativa de imposição cultural sobre os demais povos que fizeram parte da construção da identidade cultural brasileira. O Brasil, um país conhecido e reconhecido por suas pluralidades, ainda vive uma “pseudo” tentativa de “branqueamento” da raça negando justamente a sua maior riqueza, a diversidade cultural.

Ainda há muito que ser feito para que o povo brasileiro reconheça a contribuição dos povos negros, indígenas, europeus em sua formação e se orgulhe do produto resultante dessa mistura de raças, sua própria identidade.

Muitos órgãos governamentais, não-governamentais, pessoas físicas, jurídicas, movimentos organizados ou desorganizados, atuam na tentativa de elaboração de políticas afirmativas que visam a reparação dos danos sofridos pelos povos excluídos ao longo de nossa história e algumas conquistas já foram obtidas, entre elas a lei 10.639 de 9 de janeiro de 2003.

A referida lei alterou a lei 9.394/96, que estabelece as diretrizes e bases da Educação Nacional, incluindo no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática ‘História e Cultura Afro-Brasileira”, dando ainda outras providências.

No ano de 2008, a lei 11.645 estabelece que, somado à História e Cultura Afro-Brasileira, seja obrigatório na rede de ensino o estudo da História e Cultura Indígena, no intuito de afirmar a grande contribuição e participação desses povos, negros e indígenas, na formação do nosso país.

A lei 10.639 foi um grande passo no caminho da desconstrução do mito da democracia racial em nossa sociedade, uma vez que reconhece a importância da cultura e história africana na formação da identidade brasileira, estabelecendo medidas de reparação aos danos sofridos por esses povos no decorrer da história do país.

Vejo na utilização da lei 10.639 excelentes oportunidades, pois está diretamente relacionada com a educação, que é um dos principais meios de transformação social e difusão de valores e princípios, atuando diretamente na promoção da cidadania.

Várias abordagens podem ser exploradas para fazer valer a lei, dentre elas a capoeira, mas para isso é importante que os capoeiristas, que também enxergam essa oportunidade, se conscientizem do papel educativo dessa arte e procurem cada vez mais se informar sobre a história da capoeira e suas repercussões, e buscar novas ferramentas que venham agregar seu trabalho.

Para aqueles que são adeptos a outras manifestações, originadas a partir da cultura desses povos que formam nossa identidade, vale também a dica. O  importante é que pessoas e grupos engajados nessa luta se mobilizem e tirem proveito dessas conquistas até agora obtidas na tentativa de incentivar ações que fomentem ainda mais políticas afirmativas em prol da igualdade racial, fazendo com que seus anseios ganhem cada vez mais adeptos, gerando energia para impulsionar esse ciclo, que ao invés de “vicioso”, repetitivo e imutável, deve ser “virtuoso”, expandindo-se e ganhando mais proporção e visibilidade.

Como bem salientou Frantz Fanon em seu livro, Os condenados da terra (1979), os descendentes dos mercadores de escravos, dos senhores de ontem, não têm, hoje, de assumir culpa pelas desumanidades provocadas por seus antepassados. No entanto, têm eles a responsabilidade moral e política de combater o racismo, as discriminações e, juntamente com os que vêm sendo mantidos à margem, construir relações raciais e sociais sadias, em que todos cresçam e se realizem enquanto seres humanos e cidadãos.