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A revista Por Dentro da Roda é resultado de um trabalho de muitas mãos, um caminhar coletivo para construir um espaço de diálogo sobre a cultura popular, sobre tradições, sobre capoeira angola. Um espaço de escuta aos mestres e mestras que zelam das manifestações para que suas vozes ocupem e alcancem os mais diversos lugares.
PDR: Recentemente o senhor publicou o seu segundo livro,
“Capoeira angola e ancestralidade”. Como surgiu a ideia do livro, por que o
senhor escolheu esse tema e como foi esse processo de escrita do livro?
Mestre Jogo de Dentro: A intenção e a preocupação de
escrever sobre capoeira angola e ancestralidade é porque eu comecei a perceber
que, especificamente essa geração de agora, está cada vez mais se distanciando
de todo esse legado ancestral, de todas as mensagens, os recados e preocupações
que existiam, quando se falava do mestre Pastinha, de mestre João Pequeno, de
todos os ensinamentos... Então essa realidade da ancestralidade, é para as
pessoas entenderem mais…
Dentro da capoeira angola, a musicalidade, a música, traz o
fundamento do jogo, a música de certa forma está falando do jogo. Eu percebi
que as pessoas estão cada vez mais se distanciando, cantando muitas músicas e
às vezes não entendem o que está se falando. Então, eu comecei a perceber que,
além da música, alguns movimentos da capoeira angola, a chamada, a saída da
tesoura, as pessoas estão fazendo só por fazer, afinação de berimbau, bateria
da capoeira angola... Quando eu começo a perceber isso eu vi que as pessoas
estavam se perdendo, precisavam se aproximar mais e entender.
Fora da capoeira angola quando eu falo de ancestralidade eu
lembro dos recados e ensinamentos dos meus pais, dos meus avós, que são
ancestrais também, que deixaram mensagens pra mim. Minha mãe por exemplo, minha
mãe era rezadeira, foi parteira, ela fez vários partos, fazia vários trabalhos
espirituais para ajudar as pessoas, de rezar, de fazer oração, e isso aí foi se
perdendo. Fora isso, na cozinha, como ela transmitia, como ela lidava com essa
questão familiar. Através disso aí eu comecei a entender que existia uma
realidade que nós estávamos esquecendo, estava se passando o tempo e as pessoas
estavam se esquecendo dessa mensagem que foi deixada.
Quando eu vou falar sobre isso eu lembro que, praticamente,
foi tudo trazido por eles, os escravizados, foram trazidos muitos costumes,
forma de falar, de se comunicar, por exemplo, várias situações que praticamente
a gente não sabe de onde veio, mas eu tenho certeza de onde veio, desse momento
quando aconteceu toda essa realidade com a escravidão. Então, é tentar resgatar
todo esse passado para os dias de hoje, a preocupação foi essa. Viajando pelo
mundo e dando aula de capoeira eu percebia que as pessoas estavam treinando
capoeira, eu vou falar de capoeira assim no geral, porque de certa forma, eu
convivi e convivo com vários capoeiristas, não só na capoeira angola. Dando
aula eu percebi que existe uma carência muito grande de informações, tanto de
aluno, como mestre e professor, as pessoas estão jogando capoeira muitas vezes
sem entender, esse foi o pontapé inicial de pensar em escrever o livro
“Capoeira angola e ancestralidade”, trazer um pouco mais dessa realidade que cada
vez mais tá se perdendo e ficando distante.
PDR: A capa do livro traz três símbolos: sankofa, berimbau e
xaxará. Por que a escolha desses símbolos, o que eles representam tanto pro
senhor quanto para o tema do livro?
Mestre Jogo de Dentro: Na verdade essa foi a parte mais
difícil, escolher os símbolos para colocar no livro. Esse livro eu levei 4 anos
pra escrever e para a capa eu tinha um pensamento de que chegasse muito próximo
do que eu estava escrevendo.
O Berimbau sabemos que é o símbolo da capoeira e que ele
realmente tem uma ligação ancestral muito grande, muito forte. O berimbau já
era usado e é usado até hoje na África em alguns rituais. Há uns dez anos atrás
eu assisti um vídeo que tinha alguns africanos tocando berimbau em momentos de
cura, por exemplo, a pessoa estava em casa doente, com uma doença que podiam
curar aquela pessoa, então as pessoas através do som do berimbau começavam a
fazer as orações tocando o berimbau. Então, o berimbau tem essa ligação tanto
com a capoeira, com o capoeirista, que é onde você consegue desenvolver o jogo,
onde você consegue se movimentar, o berimbau te orienta, mas também ele já tem
essa história com um passado muito forte.
O Xaxará é um instrumento de orixá que tem um poder muito
grande. Quando eu escolho o xaxará é justamente pra tentar trazer esse lado
religioso de matriz africana, aí eu trago essa referência do xaxará. Quando o
orixá está com ele na mão ele tem um poder muito forte, de cura, de tirar as
energias negativas, então através do xaxará ele pode distanciar muitas coisas
ruins do local.
O Sankofa é um pássaro africano que está olhando para trás,
tentando buscar o passado para se fortalecer no futuro. Quando ele está olhando
para trás é justamente buscando toda essa questão ancestral, buscando essa
realidade do passado para se fortalecer no futuro e não deixar morrer essa
história ancestral, por isso que muitas vezes a gente faz a volta ao mundo no
sentido anti-horário na capoeira, justamente com essa intenção, de voltar no
passado para se fortalecer no futuro. O Sankofa, como pássaro que está olhando
para trás tem esse objetivo, buscar no passado para que a gente não se perca no
futuro.
Essa é a mensagem dos três símbolos na capa do livro. No
fundo, na capa do fundo, tem o mapa africano com três rostos, o mestre
Pastinha, mestre João Pequeno e a minha foto, como se estivesse basicamente
essas três gerações aí, dentro da capoeira.
(continua...)
texto extraído do livro "Discípulo que aprende, mestre que dá lição” de Lucas Machado Goulart
Então ele me ensinou a jogar capoeira, todo dia um pouco, e aprendi tudo. Ele costumava dizer 'Não provoque, menino, vai botando devagarzinho ele sabedor do que você sabe'. Na última vez que o menino me atacou fiz ele sabedor com um só golpe do que eu era capaz. E acabou-se meu rival, o menino ficou até meu amigo de admiração e respeito. (FREIRE, 1967, p.81).
Iniciativas de ensino sistematizadas, como a que recebera
mestre Pastinha, eram exceções naquela época. O processo de ensino-aprendizagem
da capoeira se destacava pelo método da oitiva, pelo qual se aprendia de forma
empírica, observando e vivenciando as relações sociais estabelecidas em seu
cotidiano. Sobre a oitiva, Fred Abreu (2003) salienta:
Era na roda, sem a interrupção de seu curso, que se dava a iniciação, com o mestre pegando nas mãos do aluno para dar uma volta com ele. Diferente de hoje em dia, quando é mais frequente se iniciar o aprendizado através de séries repetitivas de golpes e movimentos, antigamente o lance inicial poderia surgir de uma situação inesperada, própria do jogo: um balão de boca de calça, por exemplo. A partir dele se desdobravam outras situações inerentes ao jogo, que o aprendiz vivenciava orientado pelos ‘toques’ do mestre: ‘não levanta não, lá vai outro [golpe]’. (ABREU, 2003, p.20)
O processo formativo não seguia uma lógica de ensino e nem
uma metodologia pré determinada, baseava-se na espontaneidade e no improviso,
era no “calor da hora” que se aprendia, a partir de uma necessidade daquele
momento. A falta de uma metodologia específica não reflete um ensino
descompromissado, pelo contrário, a vontade de aprender é acompanhada pela
intenção de ensinar, um processo no qual o mestre cria situações de ensino que
têm a potencialidade de estimular o aluno em seu aprendizado
No ano de 1902, Pastinha ingressou na escola de Aprendizes
Marinheiros da Bahia, onde refere que aprendeu música, esgrima, floreio de
carabina e, também, ensinou capoeira a seus colegas. Após dar baixa, em 1910,
mestre Pastinha ainda se dedicou ao ensino da capoeira por mais dois anos,
conforme relata: “Lesionei na rua Sta Isabel, em 1910 a 1912, quando eu
abandonei a capoeira e voltei em 1941, para organizar o Centro de Capoeira, o
1͒ na Bahia” (PASTINHA, 1996, seção 01, p.24).
É importante ressaltar que, durante todo este período em que
aprendeu capoeira com o velho Benedito e, depois, quando se dedicou ao ensino
dessa prática, após dar baixa na Marinha, as tradições de matriz africanas eram
bastante reprimidas no Brasil. A capoeira, em especial, figurava entre as
práticas ilegais da República desde 1890, mediante o Código Penal dos Estados
Unidos do Brasil, que, em seu capítulo XIII, intitulado Dos Vadios e Capoeiras,
determinava a pena de dois a seis meses de reclusão para aqueles que fossem
detidos por
[...] fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação Capoeiragem: andar em carreiras com armas ou instrumentos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal. (REGO, 2015, p.318).
Portanto, ser capoeira naquela época era, antes de qualquer coisa, um ato de resistência e contravenção, o que aumentava ainda mais o estigma social imposto aos capoeiristas, que não se portavam de forma passiva diante dessa tentativa de se estabelecer uma ordem social homogeneizadora e preconceituosa. Interesses políticos, somados ao preconceito racial, motivavam esse choque entre os “senhores” e os “vadios”, lados opostos que, historicamente, estabeleceram uma forma de negociação pautada no confronto físico e político.
Quando o mestre Pastinha afirma ter abandonado a capoeira em
1912, entende-se que ele se refere à arte de ensinar, pois, naquela época,
capoeira se fazia, sobretudo, nas arruaças, badernas e barulhos, situações
comuns àqueles que se aventuravam pelo mundo da marginalidade. Como ele mesmo
explica:
Por causa de coisas de gente moça e pobre, tive algumas vezes a polícia em cima de mim. Barulho de rua, presepada. Quando tentavam me pegar eu lembrava de Mestre Benedito e me defendia. Eles sabiam que eu jogava capoeira, então queriam me desmoralizar na frente do povo. Por isso, bati alguma vez em polícia desabusado, mas por defesa de minha moral e do meu corpo. Naquele tempo, de 1910 a 1920, o jogo era livre. Passei a tomar conta de casa de jogo. Para manter a ordem. Mas, mesmo sendo capoeirista, eu não me descuidava de um facãozinho de doze polegadas e de dois cortes que sempre trazia comigo. Jogador profissional daquele tempo andava sempre armado. Assim, quem estava no meio deles sem arma nenhuma bancava o besta. Vi muita arruaça, algum sangue, mas não gosto de contar casos de briga minha. Bem, mas só trabalhava quando minha arte negava sustento. Além do jogo, trabalhei de engraxate, vendia gazeta, fiz garimpo, ajudei a construir o porto de Salvador. Tudo passageiro, sempre quis viver de minha arte. Minha arte é ser pintor, artista. (FREIRE, 1967, p.81).
Mesmo durante esse período, em que alega ter abandonado a
capoeira, mestre Pastinha ainda se entende capoeirista, colocando em prática os
ensinamentos de seu velho mestre para se defender de eventuais problemas, os
quais não pareciam ser esporádicos. Além disso, ele era conhecido e reconhecido
por ser capoeirista, o que motivava algumas desavenças com a polícia. Logo,
mestre Pastinha não “esteve” capoeirista até 1912 para retornar em 1941, o fato
de “ser” capoeirista sempre esteve atrelado ao seu cotidiano e à sua visão de mundo.
O “retorno” à capoeira se deu quando Aberrê, um ex-aluno da
época em que deu baixa da marinha, o convidou para assistir a uma roda da qual
participavam grandes mestres da Bahia. Esses homens, curiosos em conhecer quem
fora o mestre de Aberrê e sabedores de sua fama, pediram a ele que convidasse
mestre Pastinha para ir até lá. Ao chegar, mestre Pastinha foi recepcionado por
Amozinho, o dono daquela capoeira, que no apertar de sua mão, a entregou para
que ele pudesse tomar conta. (Mestre Pastinha e sua academia, 1969).
Nessa época, a capoeira já não mais compunha o rol das
práticas ilegais da República. Retirada do Código Penal em 1930, pelo governo
Vargas, que vislumbrava a construção de uma identidade nacional, essa prática
passa a ter maior aceitação social , mas com algumas restrições, ou seja, para
que fosse socialmente aceita seria necessário se diferenciar dentre as práticas
consideradas marginais, abandonando as ruas para ser praticada no interior das
academias, seguindo as orientações higienistas impostas pelo governo.
No dia 23 de fevereiro de 1941, mestre Pastinha funda o
Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), um marco na história da Capoeira
Angola. Ele relata:
Somos registrados, temos uma sede, temos carteiras, documentos legalizado, e assinado pelo parlamentares do país que é nosso Presidente, e mais somos querido, reconhecido, e abrasados por estas autoridades; pois bem, meus companheiros, se nós fugirmos ou abandonarmos, que provas daremos as autoridades. (PASTINHA, 1996, seção 03, p.35)
Percebe-se que o mestre se organiza em âmbito político e
social, assumindo, neste momento, uma proximidade com as autoridades. Pastinha
cede às imposições organizacionais estabelecidas pelo governo, porém, numa
sociedade marcada pelo preconceito e discriminação racial, paradoxalmente,
resiste ao afirmar e exaltar os saberes que envolvem a Capoeira Angola. Ele
declara: “estou apenas zelando essa maravilhosa luta que é deixada de erança
adequerida da dança primitiva dos caboclos, do batuque e condombré originada
pelos africanos de Angola ou gêges” (PASTINHA, 1996, seção 01, p.19).
Na condução de seu trabalho, ele reforça os valores e
princípios advindos das tradições africanas, que, por pertencerem à população
negra e marginalizada da época, eram constantemente inferiorizados e negados
pelas elites. Dessa forma, mestre Pastinha abandona a alternativa do confronto
direto com as autoridades, predominante até então, que se realizava no campo da
resistência física. Percebe-se a estruturar, a partir daí, uma postura de
resistência cultural, que representa um processo de transformação fundamental
para a aceitação e consolidação da Capoeira Angola.
A fundação do CECA contribuiu de forma significativa para a
mudança de paradigma no processo de ensino-aprendizagem da Capoeira Angola,
que, antes, se dava, sobretudo, pela oitiva e, agora, os treinamentos começam a
ganhar cada vez mais relevância.
A transição da oitiva para o treinamento sistematizado não
restringe o caráter formativo das rodas de Capoeira Angola. Aspectos como a
observação e a experimentação são potencializados nesses momentos,
características de um processo de ensino-aprendizagem que tem, na prática, uma
condição para o aprendizado. De acordo com Meira (2007, p.121) “Os rituais são
momentos abertos a influências e à inventividade, carregados de estímulos
sensíveis, emocionais e simbólicos”. Dessa forma, a riqueza pedagógica desses
estímulos faz das rodas uma verdadeira aula de Capoeira Angola
Com a transição, as lições de capoeira acontecem, não mais
de forma espontânea e improvisada, e sim, mediante treinamentos orientados e
sistematizados, com local e horário previamente estabelecidos. Processo esse
que colabora tanto para o desenvolvimento físico quanto para o aprimoramento
técnico dos capoeiristas, sobre isso mestre Pastinha (1996) esclarece:
Cumpre-me lhe dizer, não deve esquecer, que um treno de Capoeira Angola dá-lhe um ar puro e fortalece os pulmões que estever vasios: é uma grande satisfação [...].
Os primeiros exercícios é de um excelente desenvolvimento no corpo, nas pernas, e nas mãos, a cabeça, e olhar, ativo para todos os lados, terá bons resultados: bem resuluto, e respira sempre pelo nariz. (PASTINHA, 1996, seção 04, p.15-16).
O mestre não se detém apenas às questões de ordem física e
operacional, o que o diferencia de vários capoeiristas da época, pois além de
um exímio jogador foi, também, um grande pensador.
Procuro saber se a capoeira é ciência, si é, profunda e vasta, si me fornece conhecimento sobre os homens espiritual, mas também o homem corporal e os ensinamentos de ordem moral, ou intelectual devemos conhecer. (PASTINHA, 1996, seção 03, p.13).
Nota-se que a atenção de mestre Pastinha recai sobre
questões que transcendem a dimensão física da Capoeira Angola, atentando-se,
também, para os saberes inerentes a essa arte e suas implicações de ordem
comportamental e espiritual, contemplando a “Metafísica e a Prática da
Capoeira”
Mestre Pastinha apresenta uma visão de “homem”, na qual
reconhece a existência das diferentes dimensões que o compõem, as quais se
complementam e precisam ser trabalhadas em conjunto, de forma sinérgica,
visando o desenvolvimento integral do ser.
Pastinha expressa uma singular preocupação em reverter a imagem
negativa da capoeira perante a sociedade daquela época. Para isso, conduziu seu
trabalho à frente do CECA de forma a valorizar a “ética que deve presidir o
comportamento de quem conta com arma tão poderosa” (PASTINHA, 1988, p.7),
assegurando a existência e a importância das regras na Capoeira Angola, o que
vai ao encontro de seus ideais de organização. Essas regras não estão contidas
em um documento ou livro de regras, oficial e comum a todos os capoeiristas,
elas se apresentam como normas não formais de conduta, estabelecidas e
disseminadas no interior de cada grupo, e colaboram para que os jogos aconteçam
respeitando os princípios éticos e morais da Capoeira Angola.
Infelizmente grande parte dos nosso capoeirista tem conhecimento incompleto das regras da capoeira, pois é o controle do jogo que protegem aqueles que a praticam para que não descambe excesso do vale tudo, note bem, estou falando em sentido de demonstração e não de desafio. (PASTINHA, 1996, seção 01, p.14).
O mestre Pastinha salienta duas maneiras distintas de se
conceber a capoeira, uma como desafio, outra como demonstração, e frisa que o
excesso de violência nas rodas se atribui à falta de conhecimento sobre as
regras que devem orientar os jogos. Ele conduz seu trabalho a partir da perspectiva
de demonstração, privilegiando a dimensão artística da Capoeira Angola.
Segundo o mestre, “Ela parece uma dança, mas não é não,
capoeira é luta, e luta violenta. Pode matar, já matou. Bonita! Na beleza está
contida sua violência” (FREIRE, 1967, p.79). Dessa forma, ao propor uma conduta
ética e enfatizar sua beleza estética, mestre Pastinha faz da disciplina e da
arte suas principais armas no combate à violência e na busca por uma maior
aceitação social para a Capoeira Angola.
Os ensinamentos sistematizados pelo mestre Pastinha, ainda
hoje, exercem significativa influência no universo da Capoeira Angola e se
fazem atuais no trabalho de seus discípulos. Dentre eles, destacam-se os “dois
João”, mestre João Pequeno e mestre João Grande, aos quais mestre Pastinha
ensinou até mesmo o “pulo do gato”.
Essa expressão, incorporada ao vocabulário da
capoeira, provém de uma fábula em que o gato encontra a onça muito magra e
fraca. Questionada sobre o motivo de tal debilidade, a onça diz que está com
problemas para caçar, que, quando vai saltar para o ataque, sua presa foge. O
gato, então, decide ensinar a arte do pulo para sua amiga onça. Passado algum
tempo, eles se reencontram, e a onça, agora forte, agradece ao gato pelos
ensinamentos e se vai, decidindo por esperá-lo numa emboscada. Ao cruzar seu
caminho novamente, o gato é surpreendido por uma investida da onça e se esquiva
num pulo só. Confusa a onça diz: Você não me ensinou esse pulo, gato! Ele
responde: Se eu tivesse lhe ensinado, você teria me matado.
A história elucida bem a cautela dos mestres em relação ao
compartilhamento dos saberes na capoeira, uma forma de preservarem a si mesmos
e à sua arte. Pastinha (1996, seção 01, p.15 e 17) assevera que “os mestre
reserva segredos, mas não nega explicação”, dizendo ainda: “eu conheço mestres
que sabe tanto quanto eu, mais não ensina, todo mundo sabe que o gato ensinou a
onça e o que ia acontecendo?”. Quando mestre Pastinha afirma ter ensinado até
mesmo o “pulo do gato” a esses discípulos, ele demonstra que ambos são dignos
de toda a sua confiança.
Devido às suas características de jogo, mestre João Pequeno
e mestre João Grande foram apelidados de Cobra Mansa e Gavião, o primeiro com
um jogo mais baixo, se enroscando pelo chão, o outro por desenvolver um jogo
mais alto. Mesmo apresentando estilos de jogo diferentes, mestre João Pequeno e
mestre João Grande compartilham comportamentos e expressividades que os
identificam a uma mesma linhagem. Este fato reforça outro importante
ensinamento de mestre Pastinha, em que este defende o respeito à individualidade
no processo de ensino-aprendizagem, afirmando que:
Capoeira Angola só pode ser ensinada sem forçar a naturalidade da pessoa, o negócio é aproveitar os gestos livres e próprios de cada qual. Ninguém luta do meu jeito, mas no deles há toda a sabedoria que aprendi. Cada um é cada um. (PASTINHA apud FREIRE, 1967, p.81).
Ao estimular a liberdade no processo formativo da Capoeira
Angola, mestre Pastinha nega qualquer forma de padronização dos movimentos,
entendendo que os mesmos devem refletir a singularidade de cada pessoa. Os
gestos, apesar de “livres e próprios”, partilham de formas e conteúdos que
permitem ao mestre reconhecer a si próprio na expressividade de seus alunos.
Já bastante debilitado para continuar à frente das aulas,
mestre Pastinha confia a mestre João Pequeno a responsabilidade de cuidar de
seu trabalho. “João, você toma conta disso, porque eu vou morrer, mas morro
somente o corpo e em espírito eu vivo, enquanto houver capoeira o meu nome não
desaparecerá”. (MORREU João Pequeno..., 2011). Sua fala indica a consciência de
que permaneceria vivo através de seus discípulos, mantendo o seu legado e
garantindo a continuidade desse saber que atravessa os tempos.
Referências:
ABREU, F. J. de. O barracão do Mestre Waldemar. 2003.
COUTINHO, D. O ABC da Capoeira Angola: Os manuscritos do
Mestre Noronha. Frederico Abreu (org.). 1993.
FREIRE, R. É luta, é dança, é capoeira. Revista Realidade,
v. 1, n. 11, p.76-82, 1967.
MEIRA, R. B. Baila bonito baiadô: educação, danças e
culturas populares em Uberlândia, Minas Gerais. 2007.
MESTRE Pastinha e sua academia. Capoeira Angola. Brasil:
Philips, 1969
MORREU João Pequeno, mestre baiano da Capoeira Angola.
2011.
PASTINHA, V.F. Capoeira Angola, 3ed. 1988.
PASTINHA, V.F.. Quando as pernas fazem mizerêr. [Manuscritos
e desenhos de Mestre Pastinha). Organização de Ângelo Decânio Filho. 1996.
REGO, Waldeloir. Capoeira Angola: Ensaio Socioetnográfico.
2015.
Acesse a revista completa: "Revista Por Dentro da Roda"- Ancestralidade
Um dos modos de transmissão de conhecimento nas culturas
tradicionais é a oralidade. O ensino através da escuta, da contação de
histórias, da conversa. Nessa seção apresentaremos palavras que foram
transmitidas ao longo de muito tempo. A intenção passa longe de querer indicar
respostas prontas e acabadas, mas reunir os possíveis significados que cada uma
carrega. Sendo assim sua forma, seu uso e seu significado podem variar de
acordo com a localidade. São palavras, termos e expressões recorrentes na capoeira
e em manifestações afro-brasileiras. Seus significados foram coletados em
fontes diferentes, desde conversas com capoeiristas e também consulta em
estudos de pesquisa. É mais um convite a se aventurar pelo rico universo de
conhecimento e sabedoria da capoeira angola.
Aquindenrreis: Palavra inexistente em dicionários oficiais de língua portuguesa. Geralmente cantada nas rodas de capoeira durante a louvação. (Iê aquinderreis, camará!)
1 - Possível resultado de uma corruptela de “aqui tem rei”. Uma forma de se impor na roda, dizendo que ali tem alguém que está à frente.
2 - Existe um termo da língua portuguesa mais clássica que
remonta ao tempo da colonização, que é “aqui del rei” que está relacionado a um
pedido de ajuda ou socorro.
Baobá: Há cerca de 9 espécies de árvores do gênero Baobá conhecidas pelo continente africano, inseridas no gênero das plantas Adansonia. Essa árvore originária da África é uma das mais antigas da terra e é cercada de simbologias. Sua aparência tem como característica a grande dimensão de altura e tronco. Por ter o tronco oco, as pessoas também o utilizam para estocar água em períodos de estiagem de chuva. Seus galhos podem ficar desfolhados grande parte do ano. Estima-se que seja necessário cerca de 100 pessoas para abraçar o tronco todo de um baobá adulto. Árvore de forte presença nas comunidades e sua plantação acontece como marca da presença de um determinado povo no lugar.
Dentro da cultura iorubá é considerada a guardiã da alma e a da vida. Tem ligação entre os planos físico e espiritual. Por ser uma árvore presente em narrativas muito antigas, acredita-se que ela guarda memórias de tempos ancestrais.
Capoeira: As raízes etimólogicas da palavra "capoeira" não apontam uma origem precisa ou um significado apenas. Na língua guarani quer dizer “mato que não existe mais”. Nos ditos populares pode se referir também a um “mato qualquer”. Há também no Brasil uma ave pequena chamada "capoeira" que também é conhecida pelo nome de “uru” que tem movimentos parecidos com aqueles executados nas rodas. A palavra também se refere a um cesto ou lugar de guardar galinhas. No livro "Capoeira Angola: Estudo Socioetnográfico" o autor Waldeloir Rego lista mais de 30 possíveis significados e variações desse vocábulo.
Iúna: Espécie de ave de nome científico “Anhima cornuta”. Iúna ou anhuma que em tupi significa “ave preta". Também é conhecida como “ave unicórnio” pelo chifre característico em sua testa.
Tida como símbolo místico, acredita-se que a ave promova a ligação entre o plano físico e espiritual.
A Iúna, na capoeira, dá nome a um toque de berimbau, que pode variar de acordo com os grupos. Grupos mais tradicionais de capoeira angola não utilizam esse toque durante a roda, é um toque fúnebre, associado à passagem de alguém para a o plano espiritual.
Há também, aqueles que utilizam o toque durante a roda e associam a um tipo de jogo, no qual apenas mestres podem jogar.
Ticum: Ticum ou tucum, de nome científico Bactris setosa, é uma espécie de palmeira. É amplamente conhecida na capoeira por causa da história de Besouro Mangangá. Segundo contam as histórias, Besouro foi morto devido ao ataque de faca de ticum. A madeira além de ser muito forte e resistente também carrega o poder de quebrar mandingas e atravessar um corpo fechado.
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Sumário:
1- Fundamentos ancestrais - Lucas Machado Goulart, Marcela Ferreira da Silva, Vitória Marra Brasileira Martins
2- Libertar-se - Contramestre Alan
3- Fundamentos: Não me pegue não - Lucas Machado Goulart
4- Um Olhar Africano: Ancestralidade Africana e Sustentabilidade - Abiolá Àkàndé Yáyì
5- Personalidades: Mestre Pastinha - Lucas Machado Goulart
6- Entrevista: Mestre Jogo de Dentro
7- Glossário
8- Mural Cultural
Certamente você já ouviu aquela conversa de que a capoeira foi criada no Brasil como uma forma de defesa contra os maus tratos decorrentes da escravidão. Que os negros forjaram a luta nas senzalas e a disfarçaram em dança a fim de evitar retaliações e garantir a continuidade de sua prática.
Um mito de origem que ainda é bastante difundido e traz uma mistura de desinformação e ingenuidade. Primeiro porque sugere uma invenção da capoeira, desconsiderando tradições ancestrais anteriores ao processo de colonização. Segundo porque é muito difícil acreditar que esta prática pudesse passar desapercebida dos olhares das autoridades por apresentar aspectos lúdicos e artísticos, supostamente incorporados para essa finalidade.
Imagine, lá pelos idos do século XVIII, dois negros jogando capoeira e sendo abordados por um capitão do mato, os mesmos se explicam dizendo que aquilo não é luta e sim uma dança e assim são liberados para continuar sua prática. Numa época em que todas as manifestações culturais africanas eram duramente perseguidas e reprimidas, uma cena como esta parece ser muito improvável.
Não é nossa intenção negar a importância da capoeira naquele momento enquanto uma opção de defesa pessoal ou até mesmo uma alternativa lúdica para amenizar as angústias do cativeiro, mas sim, contestar um provável ponto de origem ou criação desta prática e entender o desenvolvimento da capoeira no Brasil como um processo dinâmico de trocas culturais, que guarda suas raízes do outro lado do Atlântico. Além disso, chamar a atenção para que “estórias” que fazem parte do inconsciente coletivo na capoeira possam ser repensadas e não mais difundidas sem reflexão.
O continente africano, atualmente, possui 54 países e cerca de 1 bilhão de habitantes, povos de diversas etnias e culturas que ainda preservam muitas de suas tradições. Apesar de possuírem características próprias e bastante singulares, é possível observar dentro desta diversidade aspectos que os aproximam, seja no idioma, nos costumes, em suas crenças e até mesmo na gestualidade de suas práticas corporais.
Essas semelhanças não são meras coincidências e podem ser entendidas através da ancestralidade. Certamente, se percorrermos a árvore genealógica desses povos, distintos e distantes uns dos outros, encontraremos ancestrais em comum, que em determinada época conviveram e compartilharam seus saberes.
Pensar através da perspectiva da ancestralidade nos faz entender que as coisas não são criadas do acaso, que por trás de todo ponto inicial existe uma longa história. Sendo assim, no intuito de compreender o processo de desenvolvimento da capoeira, analisamos algumas práticas marciais relativas ao continente africano, tanto aquelas desenvolvidas em solo africano quanto aquelas sistematizadas nas colônias, em busca de fundamentos em comum que as estruturam.
N’Golo - Frequentemente lembrado por sua semelhança com a capoeira, o N'golo é uma luta ritmada praticada pelos jovens rapazes do povo Mucope, na região sul de Angola. O N’golo faz parte da tradição da festa da puberdade, um rito de passagem chamado Efundula, que marca a transição da mocidade para a vida adulta das mulheres.
A palavra N'golo na língua Kikongo, falada em diversas regiões de Angola e Congo, significa força, poder, mas também faz alusão à zebra e à forma de combate desse animal, que é mimetizada pelos jovens lutadores durante o Efundula, por esse motivo o N’golo também é conhecido como dança da zebra. Segundo a tradição, o lutador que se sair vitorioso na disputa poderá escolher sua companheira dentre as jovens iniciadas, sem a necessidade de pagar o dote.
A disputa se dá em um círculo formado por cantadores, lutadores e a comunidade, que entoam cantos de chamada e resposta acompanhados por palmas sincronizadas, estabelecendo o ritmo e a atmosfera no local. Os combatentes, no centro da roda, entram em disputa utilizando-se, sobretudo, dos pés. Chutes e rasteiras marcam poderosos ataques, respondidos com saídas acrobáticas e movimentos ágeis que garantem uma boa defesa e preparam o contra-ataque.
Laamb - Tradicionalmente praticada no Senegal e na Gâmbia, a Laamb talvez seja a luta mais popular de toda a África. Uma paixão nacional que traz consigo séculos de histórias e conhecimentos. Os golpes são desferidos a partir de agarrões, através dos quais os combatentes buscam derrubar seus oponentes. É vitorioso aquele que conseguir fazer com que o adversário caia ou toque com os joelhos, costas ou mãos sobre o chão. Existe uma outra vertente do Laamb em que os lutadores podem, também, golpear com as mãos. Por esse motivo é comum fazerem uma analogia ao pica-pau, que de forma ligeira e certeira 'bica' seu oponente.
O combate, que ganhou caráter esportivo e movimenta grandes eventos por toda nação pode ser decidido em questão de minutos, porém, é precedido por um longo período preparação física e espiritual, O ritmo é de grande importância para todo o ritual e cada combatente tem seu próprio grupo de tocadores de tambor. Na noite que antecede o combate, os lutadores e os instrumentos passam por um processo de proteção espiritual. Patuás e outros objetos pessoais do próprio lutador são colocados dentro dos tambores trazendo proteção e boa sorte.
A relação espiritual é intrínseca à Laamb, não há como negligenciar essa dimensão durante o ritual, seja em eventos esportivos ou no interior das aldeias, onde geralmente acontece. A comunidade se reúne em círculo, onde cantam, dançam e escutam histórias e mitos contados pelos mais velhos e sábios dali. Os cantos e os contos trazem histórias das colheitas, disputas por terras e um passado glorioso, no intuito de motivar o lutador. Os tambores manifestam toda a preparação e colocam o corpo dos lutadores em movimento. Estes exibem sua força e coragem ao adversário através de uma dança, que precede o combate. O ritual envolve a todos os presentes, que ao som de palmas e gritos de torcida emanam sua energia aos lutadores.
Evala: A Evala é uma prática marcial relativa ao Togo, país da costa ocidental da África. Um importante ritual do povo Kabyè, que marca a passagem dos meninos para a vida adulta. A cerimônia acontece durante duas semanas do mês de Julho. Antes da luta em si, a preparação é árdua e longa, envolvendo jejum, escarificação, abstinência sexual, subida a montanhas, sacrifícios, conexão espiritual através da invocação dos antepassados por rezas e oferendas.
No momento da luta a comunidade se reúne em uma grande roda onde os meninos podem permanecer por horas. A luta é acirrada e os golpes principais são agarrões e empurrões para derrubar o oponente no chão. Um jovem passa cerca de três anos lutando para seguir até as próximas etapas da iniciação para a maturidade.
Além da preparação para a vida adulta, a cerimônia vem como solução para conflitos que por vezes culminavam em guerras. O que antes era um rito da população local, hoje atrai pessoas do mundo todo, o que fez com que esse ritual de passagem ganhasse ainda mais o caráter festivo.
Danmyé / Ladja - A Ilha de Martinica passou por um processo severo de colonização francesa marcado pelo tráfico negreiro e pela quase total dizimação dos povos nativos. Os descendentes de africanos constituem a grande maioria da população local. As particularidades da sociedade colonial estruturada ali fomentaram o desenvolvimento da Ladja ou Danmyé, uma luta ritmada ao som de tambores.
Sua prática não é ligada, necessariamente, a um ritual. O que não implica dizer que não haja uma ritualização no seu modo de fazer. O jogo se dá no formar-se de uma roda que é regida por toques de tambores, cantos e palmas. A Ladja também tem a característica da vadiação, da enganação. Os combatentes, no centro da roda, fazem a leitura um do outro para acionarem seus improvisos, suas brincadeiras e é claro, os seus golpes. O repertório de movimento envolve o corpo como um todo. Os golpes se alternam entre agarrões, rasteiras, tapas, coices, cabeçadas.
Os praticantes se preparam física e espiritualmente para entrar em jogo. Em seus relatos, afirmam a busca por uma conexão com seu eu interior e sua ancestralidade. Nesse sentido, a música tem um papel fundamental pois, além de ditar o ritmo e o andamento do jogo, também facilita essa conexão. Muitos lutadores afirmam entrar em estado de transe durante a luta.
Kalinda - Nas ilhas de Trindade e Tobago existe uma prática marcial denominada Calinda ou Kalinda, que remete ao período da colonização, sendo praticada pelos descendentes dos povos escravizados levados às ilhas para trabalhar nas plantações de tabaco e cacau.
De movimentação ágil a Kalinda é praticada ao som de tambores e cantos, que orientam os lutadores e o próprio ritual. É uma luta em que os oponentes se utilizam de um bastão, acionado tanto para a defesa quanto para o ataque. Os lutadores, embalados pela musicalidade, buscam esconder as intenções dos ataques através de expressões e movimentos dissimulados. A Kalinda é uma prática comumente presente nos festejos de carnaval das ilhas.
O uso de bastões é observado em algumas outras manifestações culturais de matriz africana como: a esgrima de facão e bastão (Colômbia), o Thatib (Antigo Egito), o Nguni (África do Sul) e o Maculelê (Brasil). É interessante notar que essas práticas com bastões estão relacionadas ao ambiente rural, sendo desenvolvidas por camponeses, pastores e trabalhadores da terra a partir de sua interação com o meio onde estão inseridos.
As descrições acima apresentam várias semelhanças com a capoeira: o respeito à ancestralidade, a simultaneidade do ritual e do jogo durante a prática, a utilização do espaço em roda, a ligação espiritual e etc...
Para fins deste texto, destacamos outras duas: a musicalidade e a gestualidade, pois se relacionam diretamente ao disfarce da luta em dança. Uma característica essencial da capoeira interpretada de forma equivocada pelo mito de origem, já citado, o qual negligencia a importância de elementos fundamentais que caracterizam a tradição.
A musicalidade, sobretudo percussiva, dá vida e movimento a grande parte dessas lutas. É um fundamento presente em vários rituais e práticas corporais africanas, desde atividades laborais como as cantigas das lavadeiras e o processo de pilar / socar o milho até cerimônias religiosas. Na capoeira, a musicalidade tem papel fundamental, estimula os movimentos, dita o ritmo dos jogos, é elemento de comunicação ritual e de ligação ancestral.
As mandingas e pantomimas se apresentam no intuito de ludibriar o oponente, não surgem como uma alternativa a mascarar a prática marcial das autoridades. São elementos anteriores ao processo de escravidão, presentes tanto nas práticas relativas às colônias quanto naquelas encontradas no continente africano, que não enfrentaram as perseguições e censuras impostas pelo sistema colonial.
A capoeira é luta e dança, é ritual e vadiação, é ação e memória. Uma parte da cultura de matriz africana que reflete o seu todo, pois está alicerçada nos fundamentos que a constitui. Fundamentos ancestrais recombinados e adaptados à realidade de seu tempo e espaço que possibilitaram o desenvolvimento dessa prática em solo brasileiro.
Nesse sentido, a descoberta de um ponto de origem para a capoeira soa como um trabalho irrealizável. Como diria mestre Pastinha: “seu princípio não tem método e o seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista”.
Lucas Machado Goulart
Marcela Ferreira da Silva
Vitória Brasileira
Texto extraído da 1ª edição da revista "Por Dentro da Roda", fevereiro de 2021