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segunda-feira, 26 de julho de 2021

Indumentária

 

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"Ele usava uma calça rasgada
Hoje usa um terno de linho
Chapéu panamá importado
Sapato de couro, bico cor de vinho"

Terno de Linho - Mestre Moraes 

-Vitória Brasileira
 

A primeira vista a indumentária na capoeira é algo imediatamente marcante. Quem assiste, já reconhece uma pessoa através desse determinado trajar. E quem já está inserido no meio da capoeira é capaz de identificar detalhes mais sutis. Hoje na capoeira angola o mais comum é que os grupos se diferenciem entre si através da roupa, um uniforme com cores e símbolos característicos.

Quem está na roda pode perceber outros detalhes muito recorrentes também, como: guias, patuás, turbantes, dreads... Mestre Cobrinha Verde, por exemplo, é lembrado por sua forte ligação com seu patuá. Esses elementos podem ser usados como proteção e mandinga na hora do jogo. Quando o parceiro estiver usando golpes mais duros, por exemplo, é possível recorrer ao cordão que carrega um patuá ou até mesmo um pingente de guarda, para pedir proteção naquele momento. São gestos comuns e recorrentes durante o jogo.

Como tudo na capoeira tem seu proceder a indumentária também não foge à regra. Há fundamentos que vão sendo ensinados com paciência pelos mestres e que requerem muita observação dos capoeiristas. Qual será o significado por trás dos ternos e demais roupas brancas usadas pelos capoeiristas? Como são escolhidos os adornos e adereços de cada jogador?

A procura por algumas respostas leva a caminhos mais profundos sobre essas questões. É interessante, por exemplo, observar fotos de antigos capoeiras. Um estudo muito esclarecedor sobre o assunto são os apontamentos da historiadora Letícia Vidor acerca do tema. No primeiro capítulo de seu livro “O Mundo de Pernas Para o Ar” em especial no trecho “a diversidade étnica e social dos capoeiras” Letícia faz uma reflexão sobre os trajes usados pelas maltas de capoeira no Rio de Janeiro:

“Os nagoas usavam uma cinta de cor branca sobre o vermelho e seu chapéu tinha uma das abas batidas para a frente. Os guaiamus, por sua vez, tinham cinta de cor vermelha sobre a branca e chapéu com uma das abas levantada para a frente (L.C., 1906). [...] Através desse tipo de oposição sob a forma de encaixe – os nagoas usavam o branco sobre o vermelho e os guaiamus o vermelho sobre o branco; os nagoas mantinham a aba do chapéu para a frente e para baixo e os guaiamus para a frente e para cima – isto é, dessa, escolha de sinais opostos para se representar, os nagoas e os guaiamus nos revelam que se reconhecem como duas metades complementares de uma mesma totalidade.” (VIDOR, Letícia. 2000 P. 23) 

Já no século XX foram feitos muitos registros da capoeira angola principalmente no Recôncavo Baiano. É válido citar novamente as fotos de Pierre Verger que capturou momentos históricos com sua câmera. Outro grande nome para a Capoeira Angola nesse sentido é Waldeloir Rego, estudioso que escreveu o livro “Capoeira Angola: estudo sócioetnográfico” que segue sendo muito referenciado no mundo da capoeira.

Ao observar essas fotos e ouvir sobre as histórias delas, descobertas vão aparecendo sobre alguns desses significados. Em seu livro Waldeloir conta sobre uma conversa que teve com Mestre Bimba a respeito do lenço de seda que era amarrado ao colarinho dos ternos: 

“[...] segundo me falou Mestre Bimba, era evitar navalhada no pescoço, porque a navalha não corta seda pura, de que eram fabricados esses lenços importados. Essa indumentária não era privativa do capoeira, era um traje comum a todo negro que quisesse usá-lo, fosse ou não capoeira. [...]. O lenço de esguião de seda de que fala Mestre Bimba não era uso privativo do capoeira. Funcionava como enfeite para proteger o colarinho da camisa contra o suor e a poeira, o que ainda em nossos dias se vê em festas de largo quando o negro brinca, coloca um simples lenço de algodão ou uma pequena toalha de rosto entre o pescoço e o colarinho da camisa”  (REGO, 44)

 Ainda no decorrer do livro Waldeloir relembra o que Manoel Querino, escritor baiano, contou para ele sobre o uso de brincos de ouro:

“Ao lado desses detalhes, Manoel Querino fala do uso de um “argolinha de ouro na orelha, como insígnia de força e valentia”. Isso também não era privativo do capoeira. Conheço pessoas bem idosas que ainda alcançaram negros não mas usando argolas mas com a orelha esquerda furada e que não eram capoeiras. Além do mais, Braz do Amaral se refere ao uso de uma argola minúscula na orelha esquerda, como hábito dos negros de Angola, sem contudo especificar que eram capoeiras.” (REGO, 44) 

O uso de ternos de linho com calça boca de sino, chapéu e sapato envernizado eram mais que vaidade. Era um modo de afirmar sua presença. As leis da época ainda eram muito repressivas com a capoeira, assim como outras manifestações de matriz africana. Os policiais eram orientados a prender os capoeiristas. A escolha desses trajes para o jogar ou vadiar é um ato que demonstra ascensão social. 

Uma grande mudança que acontece nesse meio tempo é o surgimento de academias de capoeira. Mestre Pastinha e Mestre Bimba, pioneiros nessa iniciativa, passaram a adotar o uso de uniformes. Pastinha é muito lembrado pelas cores preto e amarelo, inspirado pelas cores do seu time de coração que é o “Esporte Clube Ypiranga”de Salvador. A transferência da capoeira para as academias assim como o uso de uniformes foram consequência de necessidades da época. A repressão e hostilidade contra a capoeira era ainda intensa. A adaptação para espaços mais formais como as academias foram formas encontradas para mostrar sua relevância. 

A escolha da roupa é sim estética, mas também ritualística. É tradição com fundamentos vindos de tempos antigos que se renovam através dos corpos que continuam essa tradição. O próprio simbolismo da roupa branca revela muito do fundamento da capoeira.   

Os ternos alvos, camisa de linho, chapéu, sapato bem lustrado. Não é mera vaidade. O jogo da capoeira angola se faz muito no plano baixo, perto do chão. É a mandinga que se manifesta quando vemos um capoeirista jogando um jogo bem encaixado que ao final sai com a roupa como entrou. E é também sinal de respeito não sujar a roupa do companheiro.    Jogar um jogo ágil e não deixar o chapéu cair. É ao mesmo tempo a mais fina elegância e a mais sábia malandragem.  

REGO, Waldeloir. Capoeira Angola: ensaio sócio-etnográfico. Ed. Itapuã, 1968.

DE SOUSA REIS, Letícia Vidor. O mundo de pernas para o ar: a capoeira no Brasil. Publisher Brasil, 1997.

 

 

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Valha-me Deus


Lucas Machado Goulart

Organizados em círculo, os capoeiristas se preparam para a roda. O toque dos berimbaus quebra o silêncio e um imponente grito marca o início do ritual, IÊÊÊ!!! Acompanhando o ritmo cadenciado dos instrumentos o mestre canta uma ladainha, saudando seus ancestrais e pedindo a proteção. Em uma só voz, o coro reponde a louvação: IÊ VIVA MEU DEUS, difícil não se arrepiar. Agachados, dois capoeiristas aguardam o corrido, se cumprimentam, reverenciam a bateria e dão início ao jogo.

O clima de encantamento envolve a todos do lugar, um momento que nos leva para outra dimensão, onde o tempo parece se comportar de forma diferente e um instante pode durar toda uma eternidade. Na roda de capoeira angola o sagrado e o profano se relacionam, elementos mítico-religiosos combinados a movimentos e expressões dissimuladas promovem um misto de mistério e magia, criando, assim, um ambiente propício para o surgimento de personagens e histórias que instigam nossa imaginação.

Besouro Mangangá é, talvez, aquele cuja biografia mais represente esse lado mítico-religioso da capoeira. Um negro que se valia da fé, de sua cultura e seu corpo, fechado, para enfrentar aqueles que lhe ousassem impor dominação. Mandingueiro, que batia em polícia e, que ao pressentir o perigo, se transformava num pedaço de toco ou saia voando, em forma do inseto que lhe rendera o apelido.

A capoeira angola apresenta uma série de elementos que revelam sua afinidade às religiões afro-brasileiras, o que é natural, visto se tratar de manifestações culturais de matriz africana. Tradições diferentes fundamentadas em valores e princípios comuns. Dentre estes elementos destacamos a musicalidade e a gestualidade.

Várias músicas cantadas nas rodas de capoeira angola fazem referência à orixás, santos ou outras entidades. À São Bento, em especial, muitas cantigas são oferecidas, por se tratar de um santo que atua na proteção contra animais peçonhentos, fazendo-se uma analogia aos perigos da roda. Além disso, dois toques de berimbau levam o nome desse santo, São Bento Grande e São Bento Pequeno. Ainda no campo da musicalidade, são bastante equivalentes as características e finalidades dos três berimbaus (gunga médio e viola) na capoeira angola e dos três atabaques (rum, rumpi e lé) nas religiões afro-brasileiras.

Com relação à gestualidade, é comum observar capoeiristas fazendo o sinal da cruz, tocando o chão ou desenhando ali símbolos invisíveis. Há, também, aqueles que levam as mãos em direção aos berimbaus ou atabaque na intenção de saudar esses instrumentos. Além disso, durante os jogos, não raro, se observa algumas representações corporais que aludem a um estado de transe.

É importante compreender que a música e o corpo têm funções primordiais nas tradições de matriz africana, que vão além da estética, trazendo significados consigo. Durante os rituais essas músicas, ou pontos cantados, não são tirados de forma aleatória ou por apresentarem uma bela melodia, o aspecto estético é importante, porém, irrelevante se descontextualizado. Isso também se aplica aos gestos e expressões, que, além de signos, revelam uma maneira de o indivíduo se relacionar com suas crenças.

A partir da cosmovisão africana o plano espiritual e o plano material estão interligados e em constante comunicação, através da natureza e seus fenômenos. Sendo assim, a espiritualidade é completamente acessível ao indivíduo, uma vez que este é parte da natureza.

A espiritualidade vai além de questões religiosas, pois é uma forma individual de lidar com o sagrado. Isso não quer dizer que a individualidade do capoeirista se sobrepõe aos valores e princípios da capoeira angola. Não cabe a ninguém ignorar ou alterar saberes e práticas tradicionais por irem contra suas crenças pessoais ou por questões de mercado.

Para ser capoeirista não é necessário praticar nenhuma religião de matriz africana ou, muito menos, se tornar espiritualista. Porém, entender e valorizar a espiritualidade como um fundamento dessa cultura é um ato de respeito à tradição e à ancestralidade, além disso, nos ajuda a compreender melhor a própria capoeira angola. 

 

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quarta-feira, 7 de abril de 2021

Fundamentos ancestrais


Link da 1⁰ Edição


Certamente você já ouviu aquela conversa de que a capoeira foi criada no Brasil como uma forma de defesa contra os maus tratos decorrentes da escravidão. Que os negros forjaram a luta nas senzalas e a disfarçaram em dança a fim de evitar retaliações e garantir a continuidade de sua prática.  

 

Um mito de origem que ainda é bastante difundido e traz uma mistura de desinformação e ingenuidade. Primeiro porque sugere uma invenção da capoeira, desconsiderando tradições ancestrais anteriores ao processo de colonização. Segundo porque é muito difícil acreditar que esta prática pudesse passar desapercebida dos olhares das autoridades por apresentar aspectos lúdicos e artísticos, supostamente incorporados para essa finalidade. 

 

Imagine, lá pelos idos do século XVIII, dois negros jogando capoeira e sendo abordados por um capitão do mato, os mesmos se explicam dizendo que aquilo não é luta e sim uma dança e assim são liberados para continuar sua prática. Numa época em que todas as manifestações culturais africanas eram duramente perseguidas e reprimidas, uma cena como esta parece ser muito improvável. 

 

Não é nossa intenção negar a importância da capoeira naquele momento enquanto uma opção de defesa pessoal ou até mesmo uma alternativa lúdica para amenizar as angústias do cativeiro, mas sim, contestar um provável ponto de origem ou criação desta prática e entender o desenvolvimento da capoeira no Brasil como um processo dinâmico de trocas culturais, que guarda suas raízes do outro lado do Atlântico. Além disso, chamar a atenção para que “estórias” que fazem parte do inconsciente coletivo na capoeira possam ser repensadas e não mais difundidas sem reflexão. 

 

O continente africano, atualmente, possui 54 países e cerca de 1 bilhão de habitantes, povos de diversas etnias e culturas que ainda preservam muitas de suas tradições. Apesar de possuírem características próprias e bastante singulares, é possível observar dentro desta diversidade aspectos que os aproximam, seja no idioma, nos costumes, em suas crenças e até mesmo na gestualidade de suas práticas corporais.  

 

Essas semelhanças não são meras coincidências e podem ser entendidas através da ancestralidade. Certamente, se percorrermos a árvore genealógica desses povos, distintos e distantes uns dos outros, encontraremos ancestrais em comum, que em determinada época conviveram e compartilharam seus saberes.  

 

Pensar através da perspectiva da ancestralidade nos faz entender que as coisas não são criadas do acaso, que por trás de todo ponto inicial existe uma longa história. Sendo assim, no intuito de compreender o processo de desenvolvimento da capoeira, analisamos algumas práticas marciais relativas ao continente africano, tanto aquelas desenvolvidas em solo africano quanto aquelas sistematizadas nas colônias, em busca de fundamentos em comum que as estruturam.

N’Golo - Frequentemente lembrado por sua semelhança com a capoeira, o N'golo é uma luta ritmada praticada pelos jovens rapazes do povo Mucope, na região sul de Angola. O N’golo faz parte da tradição da festa da puberdade, um rito de passagem chamado Efundula, que marca a transição da mocidade para a vida adulta das mulheres.  

 

A palavra N'golo na língua Kikongo, falada em diversas regiões de Angola e Congo, significa força, poder, mas também faz alusão à zebra e à forma de combate desse animal, que é mimetizada pelos jovens lutadores durante o Efundula, por esse motivo o N’golo também é conhecido como dança da zebra. Segundo a tradição, o lutador que se sair vitorioso na disputa poderá escolher sua companheira dentre as jovens iniciadas, sem a necessidade de pagar o dote.

 

A disputa se dá em um círculo formado por cantadores, lutadores e a comunidade, que entoam cantos de chamada e resposta acompanhados por palmas sincronizadas, estabelecendo o ritmo e a atmosfera no local. Os combatentes, no centro da roda, entram em disputa utilizando-se, sobretudo, dos pés. Chutes e rasteiras marcam poderosos ataques, respondidos com saídas acrobáticas e movimentos ágeis que garantem uma boa defesa e preparam o contra-ataque.  

 

Laamb - Tradicionalmente praticada no Senegal e na Gâmbia, a Laamb talvez seja a luta mais popular de toda a África. Uma paixão nacional que traz consigo séculos de histórias e conhecimentos. Os golpes são desferidos a partir de agarrões, através dos quais os combatentes buscam derrubar seus oponentes. É vitorioso aquele que conseguir fazer com que o adversário caia ou toque com os joelhos, costas ou mãos sobre o chão. Existe uma outra vertente do Laamb em que os lutadores podem, também, golpear com as mãos. Por esse motivo é comum fazerem uma analogia ao pica-pau, que de forma ligeira e certeira 'bica' seu oponente. 

 

O combate, que ganhou caráter esportivo e movimenta grandes eventos por toda nação pode ser decidido em questão de minutos, porém, é precedido por um longo período preparação física e espiritual, O ritmo é de grande importância para todo o ritual e cada combatente tem seu próprio grupo de tocadores de tambor. Na noite que antecede o combate, os lutadores e os instrumentos passam por um processo de proteção espiritual. Patuás e outros objetos pessoais do próprio lutador são colocados dentro dos tambores trazendo proteção e boa sorte.  

 

A relação espiritual é intrínseca à Laamb, não há como negligenciar essa dimensão durante o ritual, seja em eventos esportivos ou no interior das aldeias, onde geralmente acontece. A comunidade se reúne em círculo, onde cantam, dançam e escutam histórias e mitos contados pelos mais velhos e sábios dali. Os cantos e os contos trazem histórias das colheitas, disputas por terras e um passado glorioso, no intuito de motivar o lutador. Os tambores manifestam toda a preparação e colocam o corpo dos lutadores em movimento. Estes exibem sua força e coragem ao adversário através de uma dança, que precede o combate. O ritual envolve a todos os presentes, que ao som de palmas e gritos de torcida emanam sua energia aos lutadores. 

 

Evala: A Evala é uma prática marcial relativa ao Togo, país da costa ocidental da África. Um importante ritual do povo Kabyè, que marca a passagem dos meninos para a vida adulta.  A cerimônia acontece durante duas semanas do mês de Julho. Antes da luta em si, a preparação é árdua e longa, envolvendo jejum, escarificação, abstinência sexual, subida a montanhas, sacrifícios, conexão espiritual através da invocação dos antepassados por rezas e oferendas. 

 

No momento da luta a comunidade se reúne em uma grande roda onde os meninos podem permanecer por horas. A luta é acirrada e os golpes principais são agarrões e empurrões para derrubar o oponente no chão. Um jovem passa cerca de três anos lutando para seguir até as próximas etapas da iniciação para a maturidade.

 

Além da preparação para a vida adulta, a cerimônia vem como solução para conflitos que por vezes culminavam em guerras. O que antes era um rito da população local, hoje atrai pessoas do mundo todo, o que fez com que esse ritual de passagem ganhasse ainda mais o caráter festivo.

 

Danmyé / Ladja - A Ilha de Martinica passou por um processo severo de colonização francesa marcado pelo tráfico negreiro e pela quase total dizimação dos povos nativos. Os descendentes de africanos constituem a grande maioria da população local. As particularidades da sociedade colonial estruturada ali fomentaram o desenvolvimento da Ladja ou Danmyé, uma luta ritmada ao som de tambores.  

 

Sua prática não é ligada, necessariamente, a um ritual. O que não implica dizer que não haja uma ritualização no seu modo de fazer. O jogo se dá no formar-se de uma roda que é regida por toques de tambores, cantos e palmas. A Ladja também tem a característica da vadiação, da enganação. Os combatentes, no centro da roda, fazem a leitura um do outro para acionarem seus improvisos, suas brincadeiras e é claro, os seus golpes. O repertório de movimento envolve o corpo como um todo. Os golpes se alternam entre agarrões, rasteiras, tapas, coices, cabeçadas.  

 

Os praticantes se preparam física e espiritualmente para entrar em jogo. Em seus relatos, afirmam a busca por uma conexão com seu eu interior e sua ancestralidade. Nesse sentido, a música tem um papel fundamental pois, além de ditar o ritmo e o andamento do jogo, também facilita essa conexão. Muitos lutadores afirmam entrar em estado de transe durante a luta. 

 

Kalinda - Nas ilhas de Trindade e Tobago existe uma prática marcial denominada Calinda ou Kalinda, que remete ao período da colonização, sendo praticada pelos descendentes dos povos escravizados levados às ilhas para trabalhar nas plantações de tabaco e cacau. 

 

De movimentação ágil a Kalinda é praticada ao som de tambores e cantos, que orientam os lutadores e o próprio ritual. É uma luta em que os oponentes se utilizam de um bastão, acionado tanto para a defesa quanto para o ataque. Os lutadores, embalados pela musicalidade, buscam esconder as intenções dos ataques através de expressões e movimentos dissimulados. A Kalinda é uma prática comumente presente nos festejos de carnaval das ilhas.  

 

O uso de bastões é observado em algumas outras manifestações culturais de matriz africana como: a esgrima de facão e bastão (Colômbia), o Thatib (Antigo Egito), o Nguni (África do Sul) e o Maculelê (Brasil). É interessante notar que essas práticas com bastões estão relacionadas ao ambiente rural, sendo desenvolvidas por camponeses, pastores e trabalhadores da terra a partir de sua interação com o meio onde estão inseridos. 

 

As descrições acima apresentam várias semelhanças com a capoeira: o respeito à ancestralidade, a simultaneidade do ritual e do jogo durante a prática, a utilização do espaço em roda, a ligação espiritual e etc... 

 

Para fins deste texto, destacamos outras duas: a musicalidade e a gestualidade, pois se relacionam diretamente ao disfarce da luta em dança. Uma característica essencial da capoeira interpretada de forma equivocada pelo mito de origem, já citado, o qual negligencia a importância de elementos fundamentais que caracterizam a tradição. 

A musicalidade, sobretudo percussiva, dá vida e movimento a grande parte dessas lutas. É um fundamento presente em vários rituais e práticas corporais africanas, desde atividades laborais como as cantigas das lavadeiras e o processo de pilar / socar o milho até cerimônias religiosas. Na capoeira, a musicalidade tem papel fundamental, estimula os movimentos, dita o ritmo dos jogos, é elemento de comunicação ritual e de ligação ancestral.  

 

As mandingas e pantomimas se apresentam no intuito de ludibriar o oponente, não surgem como uma alternativa a mascarar a prática marcial das autoridades. São elementos anteriores ao processo de escravidão, presentes tanto nas práticas relativas às colônias quanto naquelas encontradas no continente africano, que não enfrentaram as perseguições e censuras impostas pelo sistema colonial. 

 

A capoeira é luta e dança, é ritual e vadiação, é ação e memória. Uma parte da cultura de matriz africana que reflete o seu todo, pois está alicerçada nos fundamentos que a constitui. Fundamentos ancestrais recombinados e adaptados à realidade de seu tempo e espaço que possibilitaram o desenvolvimento dessa prática em solo brasileiro.


Nesse sentido, a descoberta de um ponto de origem para a capoeira soa como um trabalho irrealizável. Como diria mestre Pastinha: “seu princípio não tem método e o seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista”.  


Lucas Machado Goulart

Marcela Ferreira da Silva

Vitória Brasileira


Texto extraído da 1ª edição da revista "Por Dentro da Roda", fevereiro de 2021