Mostrando postagens com marcador personalidades. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador personalidades. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Mestre Gato Preto de Santo Amaro

 

Link para DOWNLOAD 


Há momentos dentro da Capoeira Angola que são grandes marcos para a tradição. Ao relembrar esse passado é possível identificar pontos de referência para se mirar e reverenciar graças a sua importância para a História. Uma foto em preto e branco que guarda registrada a hora do embarque de 6 angoleiros para o “Festival de Arte Negra”  em Dakar no Senegal é um desses momentos.

O ano é 1966 e a foto mostra o grupo escolhido por Mestre Pastinha para o acompanhar na travessia de cruzar o oceano para jogar capoeira no continente africano. Além de Mestre Pastinha, a comitiva é formada  por: Camafeu de Oxóssi, Mestre Roberto Satanás, Mestre Gildo Alfinete, Mestre João Grande e Mestre Gato.

E foi durante esse evento histórico que Mestre Gato Preto, concorrendo com mais de dez países, ganhou em primeiro lugar o prêmio de melhor tocador de berimbau do mundo. 

Mestre Gato Preto nasceu José Gabriel Góes no ano de 1929 em Santo Amaro da Purificação. Ainda criança começou seu treino na capoeira, quando tinha oito anos de idade. Seu primeiro mestre foi seu pai, Eutíquio Lúcio Góes, mas por volta dos doze anos, durante uma das aulas ele acabou o acertando e Eutíquio disse que não treinariam mais juntos. A partir daí Mestre Gato encontraria muitos outros mestres e capoeiristas em seu caminho que foram fundamentais para sua formação.

Em uma entrevista no ano de 1999 ao ser perguntado sobre seu início na capoeira ele conta que após treinar com seu pai ele treinou também com seu tio João Catarino, que diz ter sido aluno de Besouro, em seguida com Mestre Cobrinha Verde, Mestre Waldemar, Mestre Pastinha, Mestre João Grande, Mestre João Pequeno.

Ao ganhar desenvoltura no jogo da capoeira, Mestre Gato ficou conhecido por demonstrar agilidade dentro da roda executando os movimentos com rapidez e precisão. Tal qual um gato, como é lembrado até hoje.  

Durante seu trabalho de capoeira Mestre Gato abriu uma academia na Bahia, em meados dos anos 70 dava aulas em Brasília, chegando até a se apresentar na inauguração da cidade e ao longo dos anos 90 também estabeleceu um trabalho em São Paulo. Além de suas viagens pelo Brasil e por diversos países do mundo também para dar continuidade a tradição da capoeira.  

Mestre Gato Preto de Santo Amaro, também chamado de Berimbau de Ouro, tocava a história da capoeira, história das vivências que colecionou e de tudo que presenciou durante sua vida dedicada à tradição da Capoeira Angola. 

 


segunda-feira, 26 de julho de 2021

PERSONALIDADES - MESTRE JOÃO PEQUENO

 

LINK PARA DOWNLOAD



Adaptado do livro “Discípulo que aprende, mestre que dá lição” 

- Lucas Machado Goulart

 

João Pereira dos Santos nasceu no interior da Bahia, quando jovem, queria ser valentão, brigar com um, dois, três e bater em quem aparecesse, inspirado em Besouro Preto, que era primo de seu pai, trazendo no sangue uma herança de luta e resistência. É a vontade de se afirmar fisicamente que o leva à capoeira.

 Numa fazenda, onde trabalhava como carreiro de bois, foi que teve o primeiro contato com essa arte. Juvêncio, seu primeiro professor, foi amigo de Besouro e contava muitas histórias a respeito desse capoeira, alimentando ainda mais o imaginário de João. 

 Quando se mudou para Salvador, por volta de 1943, aos 26 anos, trabalhou como servente de pedreiro, por lá, morava um companheiro chamado Cândido, sobre o qual João Pequeno conta: 

Quando ele no serviço estava muito animado, bebia, ficava alegre e começava a cantar samba e dar pulos de Capoeira, numa daquela, ele deu um aú e eu entrando de cabeçada recebi na boca uma joelhada, ele aí disse “num se importe não, que vou lhe botar na roda de capoeira”. (LIMA, 2000, p. 6). 

 Dessa forma, Cândido o apresentou a Barbosa, que era capoeirista e passou a ensinar João, levando-o para as rodas de capoeira que aconteciam pelas ruas de Salvador. Nessa época, o processo de ensino aprendizagem se caracterizava por meio da oitiva, com o aluno vivenciando as situações que decorriam dos jogos de capoeira. Em uma dessas rodas, João conheceu um senhor, que disse aos capoeiras ali presentes: “Eu quero organizar isto e para isso eu vim aqui. Quem quiser, apareça lá no Bigode!6” (LIMA, 2000, p. 7). 

 Foi numa roda de capoeira que os caminhos de mestre João Pequeno e mestre Pastinha se cruzaram.  João começa a aprender capoeira com “seu Pastinha” e a ajudá-lo na estruturação do CECA, fortalecendo cada vez mais a relação mestre e aprendiz entre os dois. Ao falar sobre seu mestre, João Pequeno deixa claro o seu respeito e a sua admiração, evidenciando o caráter afetivo que orientava essa relação. 

Pastinha foi, foi o maior capoeirista de Salvador, o maior capoeirista e mestre de Salvador. Ah! A primeira coisa é que ele era amigo, era muito amigo, principalmente meu, foi muito amigo e ele também acabou de me ajeitar na capoeira, posso dizer que foi meu... passou como meu mestre também, eu passei nas mãos dele como aluno e tenho orgulho de ter sido aluno de seu Pastinha, de ter sido formado por seu Pastinha. (MESTRE João Pequeno de Pastinha, 2001). 

 Esse encontro se deu em meados do ano de 1945. Nessa época, por já evidenciar certo conhecimento e experiência na Capoeira Angola, João Pequeno recebe de mestre Pastinha o cargo de treinel do Centro Esportivo de Capoeira Angola, cabendo a ele a responsabilidade de conduzir os treinos na ausência do mestre. Uma mudança significativa em sua condição como capoeirista, pois, se antes respondia apenas pelas obrigações de um aprendiz, agora, deveria arcar, também, com as responsabilidades do ensino, o que exige uma mudança de comportamento e contribui para a estruturação de sua própria metodologia de ensino. 

Diante dessa nova realidade, o mestre João Pequeno desenvolve uma Sequência de Ensino para a condução de suas aulas, envolvendo movimentos básicos da Capoeira Angola e alguns exercícios que contribuem para a melhora do condicionamento físico de seus praticantes. Sobre isso, ele esclarece: “Lá na academia de seu Pastinha não existia o treino, a gente ensinava capoeira jogando e ia [...] esse jeito de ensinar capoeira, eu que criei” (CASTRO JÚNIOR, 2003, p. 110). 

 Ao sistematizar uma forma particular de ensino, mestre João Pequeno promoveu mudanças no interior dessa tradição, uma arte viva, que está em constante transformação e adaptação, indo ao encontro do que acreditava seu mestre: “somos de opinião que todas as modalidades esportivas7 podem se aperfeiçoar em sua técnica sem perder suas características” (PASTINHA, 1988, p. 28). Dentro da complexidade cultural, as mudanças aconteciam ao mesmo tempo em que a prática da Capoeira Angola se constituía. Desse modo, mestre João Pequeno imprime suas marcas no processo de ensino-aprendizagem dessa arte, mantendo os princípios de mestre Pastinha e dando continuidade aos ensinamentos que lhe foram confiados. 

A SEQUÊNCIA DE ENSINO 

A Sequência de Ensino elaborada pelo mestre João Pequeno se destaca pela simplicidade e objetividade. Esta pode ser analisada como uma partitura corporal, contemplando golpes e movimentos elementares da Capoeira Angola e outros exercícios não provenientes dessa arte, os quais estimulam o aprimoramento das capacidades físicas e motoras individuais. O treinamento se efetiva a partir da execução de um roteiro de movimentos, único e comum a todos, independente do tempo de experiência, que tem como finalidade capacitar o aluno para a roda de capoeira, o instante de colocar-se à prova. 

 Eu criei uma forma de treinamento com golpes de Capoeira, combinado com mais alguns exercícios físicos que possibilitam qualquer pessoa, no prazo de três meses, estar apta para entrar na roda de Capoeira, afirmando que possuirá uma compreensão do que é a Capoeira, naturalmente faltando-lhe a experiência, a capoeira se aprende com o amadurecimento, cada dia que passa a gente aprende mais. (LIMA, 2000, p. 13). 

 A Sequência de Ensino oferece as habilidades básicas para que o aluno possa participar, ativamente, de uma roda de capoeira, demonstrando não apenas um desempenho físico satisfatório, mas, também, um comportamento adequado, “afirmando [...] uma compreensão do que é a capoeira”. 

 Durante a realização da Sequência de Ensino, em alguns momentos, o mestre João Pequeno acompanhava os alunos na execução dos movimentos, demonstrando-os e ditando o seu ritmo. Os movimentos eram praticados em velocidade lenta / moderada, exigindo controle e força, além disso, facilitavam a percepção do desenho do corpo no espaço, por disponibilizar tempo hábil para a reflexão sobre cada um deles. 

 Além dos treinamentos, as rodas de capoeira eram constantes na academia do mestre João Pequeno, essas atividades se intercalavam em dias alternados e representavam as principais práticas formativas coordenadas pelo mestre. 

 Sobre o seu método, o mestre explica: 

Depois que faz estes exercícios o aluno já está com o corpo preparado para entrar nas rodas de capoeira e com isto ele vai aperfeiçoando e aprendendo a dar os outros golpes que não entraram no treino de exercício. Capoeira é uma coisa que não é somente os golpes que se ensina de que ela é feita. Ela tem os movimentos que formam golpes na hora exata e necessária e são coisas criadas através do amadurecimento do capoeirista. (LIMA, 2000, p. 16). 

 Essa forma de treinamento está centrada no desenvolvimento de habilidades que o mestre considerava ser o alicerce para a formação de um capoeirista. Mas, para adquirir maturidade e ir além, é necessário um comprometimento pessoal por parte do próprio aluno, uma forma de dar-lhe autonomia durante o processo formativo, incentivando-o a se posicionar na condição de sujeito de seu próprio aprendizado. 

 Ao comentar sobre como aprendeu a tocar berimbau, mestre Jogo de Dentro elucida bem essa maneira particular do mestre João Pequeno de empoderar seus alunos. 

[...] Uma vez perguntei: - Mestre eu gostaria de aprender a tocar berimbau... o que o senhor tava tocando na roda, ai quando eu perguntei isso prá ele, ele foi lá e desarmou o berimbau e colocou na parede, e ai eu fiquei meio assustado achando que tinha feito alguma pergunta de mais prô mestre... só que ai no dia seguinte ele pegou o berimbau, aquele mesmo que estava tocando que eu pedi pra ele ensinar, ele pegou e armou o berimbau na minha frente enquanto eu tava me aquecendo e começou a fazer o mesmo toque que ele tinha feito no dia anterior, então de uma certa forma isso marcou na minha vida até hoje, porque foi daquela forma que ele achou a forma mais correta de me ensinar, porque também não teve aquela coisa de o mestre pegar e ensinar coloca o dedo aqui e ali... a gente aprendia olhando. Então quando eu peço a ele prá ensinar tocar berimbau ele faz isso porque ele achou assim, se ele quiser realmente aprender tocar berimbau amanhã você vai aprender olhando eu tocar berimbau... Então, de uma certa forma, essa coisa que ficou marcado e foi ai que eu comecei... se ele tivesse pegado o berimbau e falado faça isso faça aquilo talvez não teria aprendido tocar berimbau tão fácil [...]. (MAURÍCIO, 2012, p. 86). 

 Dessa forma, o mestre João Pequeno estimula no aluno a responsabilidade de buscar o conhecimento e se desenvolver como capoeirista, ele ensina o aluno a aprender, a ser protagonista nesse processo de ensino-aprendizagem. Observa-se uma forma de ensino orientada pelos sentidos e focada no corpo. Uma pedagogia baseada no contato físico e no olhar, através da qual os sentimentos são acessados e afetados constantemente, o que favorece um maior envolvimento do aluno. 

 O mestre João Pequeno reforça a subjetividade do aluno, ao deixá-lo livre para encontrar a melhor forma de se expressar na capoeira, o que não significa agir a bel-prazer, pois “a criação realiza-se na tensão entre limite e liberdade” (SALLES, 2009, p. 66). Neste caso, a liberdade criativa é condicionada pelas normas de conduta e os fundamentos da Capoeira Angola, assimilados no decorrer do processo formativo. 

 Dessa maneira, mestre João Pequeno mantém vivo o legado de mestre Pastinha, defensor de uma disciplinarização e normatização para a capoeira, o qual estruturou as bases para que esta arte pudesse alcançar maior aceitação e relevância social. Seus esforços refletiram sobre o processo formativo da capoeira, que, antes, se consolidava através da oitiva e, agora, começa a se formatar em treinamentos cada vez mais sistematizados, no interior das academias e não mais nas ruas. 



CASTRO JÚNIOR, L.V. Olhares e toques cruzados entre os velhos mestres da capoeira e os Professores de Educação Física, 2003.

LIMA, L. A. N. Mestre João Pequeno: uma vida de capoeira. 2000

MAURÍCIO, V.S. Berimbau tem fundamento. 2012

MESTRE João Pequeno de Pastinha. 2001. CD (61 min 16).

PASTINHA, V.F. Capoeira Angola, 1988.

SALLES, C. A. Gesto Inacabado: processo de criação artística. 2009.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Personalidades: Iyá Nassô

 


Marcela Ferreira  
Vitória Brasileira

A busca pelas origens do candomblé de ketu no Brasil aponta para Iyá Nassô e sua linhagem espiritual. Francisca da Silva viveu em Salvador, Bahia no começo do século XIX e ficou conhecida como Iyá Nassô. Juntamente com Iyá Acalá e Iyá Detá fundou o Ilê Axé Iyá Nassô Oka também conhecido Terreiro Casa Branca do Engenho Velho.

Para contar essa história é importante esclarecer que os dados coletados ao longo do tempo se baseiam principalmente em depoimentos orais das pessoas da região do Terreiro. Uma das pessoas fundamentais para essa busca foi Pierre Verger. O fotógrafo nascido em Paris veio para Salvador e ali se estabeleceu. Dedicou sua vida a pesquisar e registrar a cultura da Bahia, como a capoeira e o candomblé. Suas fotos, além de belíssimas, são documentos históricos que revelam muito do Recôncavo Baiano durante o século XX. Ao buscar esse resgate da história de Iyá Nassô ele ajuda a reconstruir a memória dessa tradição. Mas há também pesquisas que buscam fontes documentais mais específicas, o que revela detalhes da vida de Iyá Nassô. Damos destaque para a pesquisa "Marcelina da Silva e seu mundo: novos dados para uma historiografia do candomblé de Ketu" feita por Lisa Earl Castillo e Luis Nicolau Parés. 

Francisca da Silva juntamente de seu companheiro José Pedro Autran faziam parte do grupo de ex- escravizados que conseguiram uma ascensão econômica de sua época chegando a possuir inclusive outros escravos. Muitas das informações sobre Iyá Nassô estão registradas no testamento de Obatossi, Marcelina da Silva, que herdou o Terreiro da Casa Branca. Marcelina anteriormente era escrava de Iyá Nassô e esse ponto traz uma discussão controversa. Um dos argumentos usados para subestimar o período da escravidão é dizer que "ah, mas em África também haviam escravos. Nos quilombos haviam pessoas escravizadas". De fato, a escravidão é uma prática muito anterior a colonização no Brasil e nas Américas. A escravidão está presente em culturas de povos do mundo todo. O termo "escravo" vem de "slave" ou “eslavo” denominação étnica de povos da Europa Central e Oriental. Uma pessoa poderia ser escravizada por várias razões como guerras, dívidas etc. E em alguns casos havia a possibilidade de se tornar livre novamente. Uma grande diferença entre a forma de escravidão realizada em África e a adotada no Brasil, por exemplo,  é o processo sistemático de destruição dos povos sob a justificativa de inferioridade racial. Não mais se escravizava alguém por perda em campo de batalha, mas com a certeza de que aquele povo não tinha nem mesmo alma. A escravidão reproduzida pelos povos africanos já em terras brasileiras faz referência ao que já era praticado no continente africano bem antes dos colonizadores. Na época de Iyá Nassô, século XIX, já eram vistos alguns escravos alforriados que eventualmente também tinham posse de escravos, mas é importante deixar claro que era uma relação diferente da praticada pelos colonizadores.  Na documentação existente sobre a vida de Iyá Nassô e seu companheiro é possível concluir também que eles foram responsáveis pela alforria de muitos desses escravos.

A casa onde Iyá Nassô vivia na Freguesia do Passo, Ladeira do Carmo, na cidade de Salvador, era local de frequente encontro para o culto de Xangô, orixá de quem é sacerdotisa. Sua casa com o passar do tempo se tornou referência espiritual da região:

“Sabemos, por outro lado, que Iyá Nassô era o título ritual usado pela sacerdotisa encarregada do culto de Xangô na casa do alafin (rei) de Oyó. A aparente centralidade da devoção ao orixá do trovão na casa dessa família e os vínculos familiares com Oyó reforçam ainda mais a hipótese de ser Francisca da Silva a lendária Iyá Nassô. As festas celebradas na Ladeira do Carmo aconteciam “há muito tempo”, o que sugere que naquele lugar existia um candomblé nagô dedicado a Xangô, provavelmente liderado pela sacerdotisa que possuía o cargo de Iyá Nassô.”
(CASTILLO; PARÉS, p 12 , 2007) 

Depois de alguns anos, conta-se que Iyá Nassô teria feito uma viagem à África para buscar suas raízes espirituais. Há dois trechos da pesquisa de Lisa Castillo e Luis Parés que desvendam alguns pontos que envolvem a história dessas viagens. O primeiro deles firma a importância dessa jornada para a formação religiosa de Iyá Nassô:

"Essa travessia para a Costa da África, realizada no fim de 1837 por Marcelina da Silva e sua filha, Maria Magdalena, é, a todas as luzes, a mesma viagem tão zelosamente preservada na memória coletiva dos terreiros. Todavia, se desse retorno também participou Iyá Nassô, como afirma a tradição oral, parece quase impossível não identificá-la com Francisca da Silva, a líder do grupo. Isso implicaria que essa africana, de que Marcelina lembrara no seu testamento cinco décadas depois, era, além de sua senhora, também sua ialorixá." 

(CASTILLO; PARÉS, p. 9 , 2007) 

No começo do século XIX houve um forte movimento de volta para o continente africano por certa parte da população negra. No Benim inclusive há um termo para definir esses povos que é “agudá” que significa “os retornados”. Em seguida, o texto narra um pouco sobre como o  contexto da época pode ter influenciado na ida de Iyá Nassô para a Costa da África. O ano de 1835 foi marcado pela Revolta dos Malês. Além da busca por conhecimentos religiosos, especula-se também que essa viagem aconteceu devido a perseguição que a família de Iyá Nassô estaria sofrendo pelo envolvimento de seu filho na Revolta dos Malês:

“A tradição oral sustenta que Marcelina e Iyá Nassô teriam retornado à África com o intuito de aperfeiçoar seu conhecimento religioso e trazer de volta outros sacerdotes. Sem descartar a possibilidade destas intenções, não podemos deixar de levar em conta a conjuntura política na Bahia, naquele tempo. Dois anos apenas tinham-se passado desde a revolta dos malês e, como demonstra João José Reis, o período após o levante foi uma época de vulnerabilidade, de perseguição e até de terror para a comunidade africana, sobretudo para os nagôs. A polícia invadia seus domicílios subitamente e os prendia de forma arbitrária. A mera posse de qualquer papel escrito em árabe era considerada evidência de participação na rebelião. Nesse período, milhares de africanos libertos deixaram a Bahia para retornar ao continente-mãe, alguns deportados, outros fugindo das novas leis que restringiram seus direitos. ”

(CASTILLO; PARÉS, p. 41 , 2007.) 

Sobre seu retorno não se sabe ao certo. Alguns dizem que ela ficou no continente africano e de lá nunca mais voltou, mas também há quem diga que Iyá Nassô voltou para Salvador dando continuidade ao culto de Xangô em sua Casa. Outro personagem importante da história é o babalaô Bamboxê Obitikô. Há histórias sobre ele ter sido trazido para o Brasil na viagem de volta da África por Marcelina da Silva.

 “Como foi dito, algumas versões da tradição oral contam que Iyá Nassô voltou à África em companhia de Marcelina e lá faleceu. Marcelina regressou então com a ‘herança’ (de bens e de cargos) e assumiu a liderança do Engenho Velho”. De fato, após 1837, não achamos qualquer referência nos arquivos da Bahia a Francisca da Silva ou a José Pedro Autran, o que reforça a tese de que eles ficaram na África. Todavia, em meados da década de 1840, começam a aparecer documentos em nome de Marcelina da Silva, sugerindo que ela permaneceu vários anos na Costa antes de retornar. Ignoramos quando ou de que forma conseguiu regressar à Bahia, pois, após a revolta dos malês, a entrada de africanos libertos estava proibida por lei, mesmo que houvesse frequentes exceções. Embora também não saibamos se ela retornou junto com o babalaô Bamboxê, como sustenta a tradição oral, o que parece claro é que deixou sua filha Magdalena na Costa e que esta só voltou ao Brasil anos depois, já adulta. ”

(CASTILLO; PARÉS,  p. 125 , 2007) 


No testamento de Iyá Nassô ela deixa o Terreiro de herança para Marcelina da Silva. Obatossi, que também era sua filha espiritual, e se tornou a segunda Ialorixá da Casa. Obatossi, também sacerdotisa de Xangô e assumiu essa liderança que foi sucedida em sequência por Iyá Omoniquê, Iyá Ursulina, Iyá Oin Funquê, Iyá Maria Deolinda, Iyá Oxum Niquê etc.

Ilê Axé Iyá Nassô Oká- Terreiro Casa Branca do Engenho Velho

Testemunha da história de um povo, o terreiro fundado pelas três mulheres é parte da história da Bahia e de todo povo brasileiro. O mais antigo templo afro-religioso foi fundado na barroquinha nos fundos de uma igreja e depois devido à grande repressão contra com os povos negros foi levado para o Engelho velho e lá se encontra até hoje. O Ilê Axé Nassô Okâ tem enquanto seu principal símbolo a coroa de Xangô e uma forte ligação com Oxóssi a quem o terreno é consagrado exemplificando a íntima ligação entre o Ilê Axé com as cidades de Oió e Ketu, que foram reinados por Xangô e Oxóssi respectivamente, orixás muito presentes nas tradições e história da casa.  

 O Ilê Axé Nassô Okâ foi descrito pelo poeta Francisco Alvim (1984) como “A MÃE DE TODAS AS CASAS” e não é pra menos, para além de ser reconhecido como a primeira casa de orixá fundada no brasil é da fundação do Terreiro Casa Branca que sai nomes de suma importância para o candomblé no Brasil, como Ialorixá Maria Júlia da Conceição Nazaré, matriarca do Terreiro do Gantois, e a Ialorixá Eugênia Ana dos Santos, matriarca do Axé Opô Afonjá. E tantas outras que enraizaram a partir dali e foram para muito além da Bahia. A mãe de todas as casas teve sua importância reconhecida dentro e fora do terreiro:  

“O valor da produção cultural do povo-de-santo da Casa Branca do Engenho Velho é amplamente reconhecido por intelectuais de renome; como já se viu, a restauração da Praça de Oxum foi feita com base em projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, que o presenteou à comunidade do templo de Iyá Nassô; artistas, escritores e cientistas, a exemplo de Carybé, Chico Buarque, Jorge Amado, Gilberto Gil, Francisco Alvim, José Carlos Capinan, Caetano Veloso, Pedro Agostinho, Abdias Nascimento, Elisa Larkin Nascimento, Joel Rufino, Emerson Andrade Sales, Naomar Monteiro de Almeida Filho, Débora Nunes e muitos outros já deram testemunho de seu respeito por esta Casa, que é o primeiro monumento negro a ser reconhecido como patrimônio histórico do Brasil e o primeiro templo de um culto de origem africana a ter tal reconhecimento nas Américas (SERRA,2005). 

(SERRA, p. 13, 2008) 

 A luta pelo reconhecimento e defesa do Ilê Axé resultou no tombamento do Ilê Axé Nassô Okâ pelo IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e foi declarado como patrimônio material nacional. Foi o primeiro terreiro do Brasil a receber tal reconhecimento. O ato de patrimonialização do Terreiro Casa Branca do Engenho Velho identifica esse espaço como peça importante da cultura afro-brasileira conservando assim sua história e tradição. Esses espaços vão muito além de construções físicas. São espaços que zelam pela memória, tradição e da espiritualidade afro-brasileira. 

A hierarquia, a ancestralidade e o respeito são princípios inegociáveis dentro das tradições de matriz africana, onde os cultos e organizações são fortemente marcados pelo protagonismo feminino. Os terreiros têm e tiveram um papel fundamental nas vidas das mulheres, que se organizavam nesses espaços de forma política e econômica, garantindo o sustento das famílias e a independência financeira, as baianas do acarajé e as quituteiras são uma grande expressão disso. As grandes sacerdotisas, mulheres reconhecidas e imponentes no campo religioso e na organização civil, mulheres empreendedoras e de grande liderança são as “Mulheres de partido alto”, que marcam sua presença vital no Ilê Axé Nassô Okâ. O Terreiro Casa Branca do Engenho Velho transcende seu espaço físico e as relações nascidas ali vão junto, é formado uma família, a família de santo a qual se estabelece vínculos efetivos, relações de muita cumplicidade e companheirismo que entrelaçam todas as esferas do plano material e imaterial. 

Link para download

terça-feira, 20 de abril de 2021

Mestre Pastinha

 texto extraído do livro "Discípulo que aprende, mestre que dá lição” de Lucas Machado Goulart


Durante a infância, Vicente Ferreira Pastinha dividia seu tempo entre as aulas no Liceu de Artes e Ofícios da Bahia, onde se dedicou a aprender a pintura, e as brincadeiras nas ruas do subúrbio de Salvador. Em 1899, ainda moleque, costumava entrar em luta com um menino menor e mais ativo que ele, dessa forma, um velho africano, de nome Benedito, assistindo da janela àquela cena que se repetia com frequência na rua de sua casa, se ofereceu para ajudá-lo. Ele conta:

Então ele me ensinou a jogar capoeira, todo dia um pouco, e aprendi tudo. Ele costumava dizer 'Não provoque, menino, vai botando devagarzinho ele sabedor do que você sabe'. Na última vez que o menino me atacou fiz ele sabedor com um só golpe do que eu era capaz. E acabou-se meu rival, o menino ficou até meu amigo de admiração e respeito. (FREIRE, 1967, p.81).

Iniciativas de ensino sistematizadas, como a que recebera mestre Pastinha, eram exceções naquela época. O processo de ensino-aprendizagem da capoeira se destacava pelo método da oitiva, pelo qual se aprendia de forma empírica, observando e vivenciando as relações sociais estabelecidas em seu cotidiano. Sobre a oitiva, Fred Abreu (2003) salienta: 

Era na roda, sem a interrupção de seu curso, que se dava a iniciação, com o mestre pegando nas mãos do aluno para dar uma volta com ele. Diferente de hoje em dia, quando é mais frequente se iniciar o aprendizado através de séries repetitivas de golpes e movimentos, antigamente o lance inicial poderia surgir de uma situação inesperada, própria do jogo: um balão de boca de calça, por exemplo. A partir dele se desdobravam outras situações inerentes ao jogo, que o aprendiz vivenciava orientado pelos ‘toques’ do mestre: ‘não levanta não, lá vai outro [golpe]’. (ABREU, 2003, p.20)

O processo formativo não seguia uma lógica de ensino e nem uma metodologia pré determinada, baseava-se na espontaneidade e no improviso, era no “calor da hora” que se aprendia, a partir de uma necessidade daquele momento.  A falta de uma metodologia específica não reflete um ensino descompromissado, pelo contrário, a vontade de aprender é acompanhada pela intenção de ensinar, um processo no qual o mestre cria situações de ensino que têm a potencialidade de estimular o aluno em seu aprendizado

No ano de 1902, Pastinha ingressou na escola de Aprendizes Marinheiros da Bahia, onde refere que aprendeu música, esgrima, floreio de carabina e, também, ensinou capoeira a seus colegas. Após dar baixa, em 1910, mestre Pastinha ainda se dedicou ao ensino da capoeira por mais dois anos, conforme relata: “Lesionei na rua Sta Isabel, em 1910 a 1912, quando eu abandonei a capoeira e voltei em 1941, para organizar o Centro de Capoeira, o 1͒ na Bahia” (PASTINHA, 1996, seção 01, p.24). 

É importante ressaltar que, durante todo este período em que aprendeu capoeira com o velho Benedito e, depois, quando se dedicou ao ensino dessa prática, após dar baixa na Marinha, as tradições de matriz africanas eram bastante reprimidas no Brasil. A capoeira, em especial, figurava entre as práticas ilegais da República desde 1890, mediante o Código Penal dos Estados Unidos do Brasil, que, em seu capítulo XIII, intitulado Dos Vadios e Capoeiras, determinava a pena de dois a seis meses de reclusão para aqueles que fossem detidos por 

[...] fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação Capoeiragem: andar em carreiras com armas ou instrumentos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal. (REGO, 2015, p.318). 

 Portanto, ser capoeira naquela época era, antes de qualquer coisa, um ato de resistência e contravenção, o que aumentava ainda mais o estigma social imposto aos capoeiristas, que não se portavam de forma passiva diante dessa tentativa de se estabelecer uma ordem social homogeneizadora e preconceituosa. Interesses políticos, somados ao preconceito racial, motivavam esse choque entre os “senhores” e os “vadios”, lados opostos que, historicamente, estabeleceram uma forma de negociação pautada no confronto físico e político.

Quando o mestre Pastinha afirma ter abandonado a capoeira em 1912, entende-se que ele se refere à arte de ensinar, pois, naquela época, capoeira se fazia, sobretudo, nas arruaças, badernas e barulhos, situações comuns àqueles que se aventuravam pelo mundo da marginalidade. Como ele mesmo explica:

Por causa de coisas de gente moça e pobre, tive algumas vezes a polícia em cima de mim. Barulho de rua, presepada. Quando tentavam me pegar eu lembrava de Mestre Benedito e me defendia. Eles sabiam que eu jogava capoeira, então queriam me desmoralizar na frente do povo. Por isso, bati alguma vez em polícia desabusado, mas por defesa de minha moral e do meu corpo. Naquele tempo, de 1910 a 1920, o jogo era livre. Passei a tomar conta de casa de jogo. Para manter a ordem. Mas, mesmo sendo capoeirista, eu não me descuidava de um facãozinho de doze polegadas e de dois cortes que sempre trazia comigo. Jogador profissional daquele tempo andava sempre armado. Assim, quem estava no meio deles sem arma nenhuma bancava o besta. Vi muita arruaça, algum sangue, mas não gosto de contar casos de briga minha. Bem, mas só trabalhava quando minha arte negava sustento. Além do jogo, trabalhei de engraxate, vendia gazeta, fiz garimpo, ajudei a construir o porto de Salvador. Tudo passageiro, sempre quis viver de minha arte. Minha arte é ser pintor, artista. (FREIRE, 1967, p.81).

Mesmo durante esse período, em que alega ter abandonado a capoeira, mestre Pastinha ainda se entende capoeirista, colocando em prática os ensinamentos de seu velho mestre para se defender de eventuais problemas, os quais não pareciam ser esporádicos. Além disso, ele era conhecido e reconhecido por ser capoeirista, o que motivava algumas desavenças com a polícia. Logo, mestre Pastinha não “esteve” capoeirista até 1912 para retornar em 1941, o fato de “ser” capoeirista sempre esteve atrelado ao seu cotidiano e à sua visão de mundo.

O “retorno” à capoeira se deu quando Aberrê, um ex-aluno da época em que deu baixa da marinha, o convidou para assistir a uma roda da qual participavam grandes mestres da Bahia. Esses homens, curiosos em conhecer quem fora o mestre de Aberrê e sabedores de sua fama, pediram a ele que convidasse mestre Pastinha para ir até lá. Ao chegar, mestre Pastinha foi recepcionado por Amozinho, o dono daquela capoeira, que no apertar de sua mão, a entregou para que ele pudesse tomar conta. (Mestre Pastinha e sua academia, 1969).

Nessa época, a capoeira já não mais compunha o rol das práticas ilegais da República. Retirada do Código Penal em 1930, pelo governo Vargas, que vislumbrava a construção de uma identidade nacional, essa prática passa a ter maior aceitação social , mas com algumas restrições, ou seja, para que fosse socialmente aceita seria necessário se diferenciar dentre as práticas consideradas marginais, abandonando as ruas para ser praticada no interior das academias, seguindo as orientações higienistas impostas pelo governo.

No dia 23 de fevereiro de 1941, mestre Pastinha funda o Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), um marco na história da Capoeira Angola. Ele relata: 

Somos registrados, temos uma sede, temos carteiras, documentos legalizado, e assinado pelo parlamentares do país que é nosso Presidente, e mais somos querido, reconhecido, e abrasados por estas autoridades; pois bem, meus companheiros, se nós fugirmos ou abandonarmos, que provas daremos as autoridades. (PASTINHA, 1996, seção 03, p.35) 

Percebe-se que o mestre se organiza em âmbito político e social, assumindo, neste momento, uma proximidade com as autoridades. Pastinha cede às imposições organizacionais estabelecidas pelo governo, porém, numa sociedade marcada pelo preconceito e discriminação racial, paradoxalmente, resiste ao afirmar e exaltar os saberes que envolvem a Capoeira Angola. Ele declara: “estou apenas zelando essa maravilhosa luta que é deixada de erança adequerida da dança primitiva dos caboclos, do batuque e condombré originada pelos africanos de Angola ou gêges” (PASTINHA, 1996, seção 01, p.19). 

Na condução de seu trabalho, ele reforça os valores e princípios advindos das tradições africanas, que, por pertencerem à população negra e marginalizada da época, eram constantemente inferiorizados e negados pelas elites. Dessa forma, mestre Pastinha abandona a alternativa do confronto direto com as autoridades, predominante até então, que se realizava no campo da resistência física. Percebe-se a estruturar, a partir daí, uma postura de resistência cultural, que representa um processo de transformação fundamental para a aceitação e consolidação da Capoeira Angola.

A fundação do CECA contribuiu de forma significativa para a mudança de paradigma no processo de ensino-aprendizagem da Capoeira Angola, que, antes, se dava, sobretudo, pela oitiva e, agora, os treinamentos começam a ganhar cada vez mais relevância. 

A transição da oitiva para o treinamento sistematizado não restringe o caráter formativo das rodas de Capoeira Angola. Aspectos como a observação e a experimentação são potencializados nesses momentos, características de um processo de ensino-aprendizagem que tem, na prática, uma condição para o aprendizado. De acordo com Meira (2007, p.121) “Os rituais são momentos abertos a influências e à inventividade, carregados de estímulos sensíveis, emocionais e simbólicos”. Dessa forma, a riqueza pedagógica desses estímulos faz das rodas uma verdadeira aula de Capoeira Angola

Com a transição, as lições de capoeira acontecem, não mais de forma espontânea e improvisada, e sim, mediante treinamentos orientados e sistematizados, com local e horário previamente estabelecidos. Processo esse que colabora tanto para o desenvolvimento físico quanto para o aprimoramento técnico dos capoeiristas, sobre isso mestre Pastinha (1996) esclarece:

Cumpre-me lhe dizer, não deve esquecer, que um treno de Capoeira Angola dá-lhe um ar puro e fortalece os pulmões que estever vasios: é uma grande satisfação [...].

Os primeiros exercícios é de um excelente desenvolvimento no corpo, nas pernas, e nas mãos, a cabeça, e olhar, ativo para todos os lados, terá bons resultados: bem resuluto, e respira sempre pelo nariz. (PASTINHA, 1996, seção 04, p.15-16).

O mestre não se detém apenas às questões de ordem física e operacional, o que o diferencia de vários capoeiristas da época, pois além de um exímio jogador foi, também, um grande pensador.

Procuro saber se a capoeira é ciência, si é, profunda e vasta, si me fornece conhecimento sobre os homens espiritual, mas também o homem corporal e os ensinamentos de ordem moral, ou intelectual devemos conhecer. (PASTINHA, 1996, seção 03, p.13).

Nota-se que a atenção de mestre Pastinha recai sobre questões que transcendem a dimensão física da Capoeira Angola, atentando-se, também, para os saberes inerentes a essa arte e suas implicações de ordem comportamental e espiritual, contemplando a “Metafísica e a Prática da Capoeira”

Mestre Pastinha apresenta uma visão de “homem”, na qual reconhece a existência das diferentes dimensões que o compõem, as quais se complementam e precisam ser trabalhadas em conjunto, de forma sinérgica, visando o desenvolvimento integral do ser.

Pastinha expressa uma singular preocupação em reverter a imagem negativa da capoeira perante a sociedade daquela época. Para isso, conduziu seu trabalho à frente do CECA de forma a valorizar a “ética que deve presidir o comportamento de quem conta com arma tão poderosa” (PASTINHA, 1988, p.7), assegurando a existência e a importância das regras na Capoeira Angola, o que vai ao encontro de seus ideais de organização. Essas regras não estão contidas em um documento ou livro de regras, oficial e comum a todos os capoeiristas, elas se apresentam como normas não formais de conduta, estabelecidas e disseminadas no interior de cada grupo, e colaboram para que os jogos aconteçam respeitando os princípios éticos e morais da Capoeira Angola.

Infelizmente grande parte dos nosso capoeirista tem conhecimento incompleto das regras da capoeira, pois é o controle do jogo que protegem aqueles que a praticam para que não descambe excesso do vale tudo, note bem, estou falando em sentido de demonstração e não de desafio. (PASTINHA, 1996, seção 01, p.14).

O mestre Pastinha salienta duas maneiras distintas de se conceber a capoeira, uma como desafio, outra como demonstração, e frisa que o excesso de violência nas rodas se atribui à falta de conhecimento sobre as regras que devem orientar os jogos. Ele conduz seu trabalho a partir da perspectiva de demonstração, privilegiando a dimensão artística da Capoeira Angola. 

Segundo o mestre, “Ela parece uma dança, mas não é não, capoeira é luta, e luta violenta. Pode matar, já matou. Bonita! Na beleza está contida sua violência” (FREIRE, 1967, p.79). Dessa forma, ao propor uma conduta ética e enfatizar sua beleza estética, mestre Pastinha faz da disciplina e da arte suas principais armas no combate à violência e na busca por uma maior aceitação social para a Capoeira Angola.

Os ensinamentos sistematizados pelo mestre Pastinha, ainda hoje, exercem significativa influência no universo da Capoeira Angola e se fazem atuais no trabalho de seus discípulos. Dentre eles, destacam-se os “dois João”, mestre João Pequeno e mestre João Grande, aos quais mestre Pastinha ensinou até mesmo o “pulo do gato”.

 Essa expressão, incorporada ao vocabulário da capoeira, provém de uma fábula em que o gato encontra a onça muito magra e fraca. Questionada sobre o motivo de tal debilidade, a onça diz que está com problemas para caçar, que, quando vai saltar para o ataque, sua presa foge. O gato, então, decide ensinar a arte do pulo para sua amiga onça. Passado algum tempo, eles se reencontram, e a onça, agora forte, agradece ao gato pelos ensinamentos e se vai, decidindo por esperá-lo numa emboscada. Ao cruzar seu caminho novamente, o gato é surpreendido por uma investida da onça e se esquiva num pulo só. Confusa a onça diz: Você não me ensinou esse pulo, gato! Ele responde: Se eu tivesse lhe ensinado, você teria me matado.

A história elucida bem a cautela dos mestres em relação ao compartilhamento dos saberes na capoeira, uma forma de preservarem a si mesmos e à sua arte. Pastinha (1996, seção 01, p.15 e 17) assevera que “os mestre reserva segredos, mas não nega explicação”, dizendo ainda: “eu conheço mestres que sabe tanto quanto eu, mais não ensina, todo mundo sabe que o gato ensinou a onça e o que ia acontecendo?”. Quando mestre Pastinha afirma ter ensinado até mesmo o “pulo do gato” a esses discípulos, ele demonstra que ambos são dignos de toda a sua confiança. 

Devido às suas características de jogo, mestre João Pequeno e mestre João Grande foram apelidados de Cobra Mansa e Gavião, o primeiro com um jogo mais baixo, se enroscando pelo chão, o outro por desenvolver um jogo mais alto. Mesmo apresentando estilos de jogo diferentes, mestre João Pequeno e mestre João Grande compartilham comportamentos e expressividades que os identificam a uma mesma linhagem. Este fato reforça outro importante ensinamento de mestre Pastinha, em que este defende o respeito à individualidade no processo de ensino-aprendizagem, afirmando que:

Capoeira Angola só pode ser ensinada sem forçar a naturalidade da pessoa, o negócio é aproveitar os gestos livres e próprios de cada qual. Ninguém luta do meu jeito, mas no deles há toda a sabedoria que aprendi. Cada um é cada um. (PASTINHA apud FREIRE, 1967, p.81).

Ao estimular a liberdade no processo formativo da Capoeira Angola, mestre Pastinha nega qualquer forma de padronização dos movimentos, entendendo que os mesmos devem refletir a singularidade de cada pessoa. Os gestos, apesar de “livres e próprios”, partilham de formas e conteúdos que permitem ao mestre reconhecer a si próprio na expressividade de seus alunos.

Já bastante debilitado para continuar à frente das aulas, mestre Pastinha confia a mestre João Pequeno a responsabilidade de cuidar de seu trabalho. “João, você toma conta disso, porque eu vou morrer, mas morro somente o corpo e em espírito eu vivo, enquanto houver capoeira o meu nome não desaparecerá”. (MORREU João Pequeno..., 2011). Sua fala indica a consciência de que permaneceria vivo através de seus discípulos, mantendo o seu legado e garantindo a continuidade desse saber que atravessa os tempos.

 

Referências:

ABREU, F. J. de. O barracão do Mestre Waldemar. 2003.

COUTINHO, D. O ABC da Capoeira Angola: Os manuscritos do Mestre Noronha. Frederico Abreu (org.). 1993. 

FREIRE, R. É luta, é dança, é capoeira. Revista Realidade, v. 1, n. 11, p.76-82, 1967.

MEIRA, R. B. Baila bonito baiadô: educação, danças e culturas populares em Uberlândia, Minas Gerais. 2007. 

MESTRE Pastinha e sua academia. Capoeira Angola. Brasil: Philips, 1969

MORREU João Pequeno, mestre baiano da Capoeira Angola. 2011. 

PASTINHA, V.F. Capoeira Angola, 3ed. 1988.

PASTINHA, V.F.. Quando as pernas fazem mizerêr. [Manuscritos e desenhos de Mestre Pastinha). Organização de Ângelo Decânio Filho. 1996.

REGO, Waldeloir. Capoeira Angola: Ensaio Socioetnográfico. 2015.


Acesse a revista completa: "Revista Por Dentro da Roda"- Ancestralidade