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sexta-feira, 30 de abril de 2021

Personalidades: Iyá Nassô

 


Marcela Ferreira  
Vitória Brasileira

A busca pelas origens do candomblé de ketu no Brasil aponta para Iyá Nassô e sua linhagem espiritual. Francisca da Silva viveu em Salvador, Bahia no começo do século XIX e ficou conhecida como Iyá Nassô. Juntamente com Iyá Acalá e Iyá Detá fundou o Ilê Axé Iyá Nassô Oka também conhecido Terreiro Casa Branca do Engenho Velho.

Para contar essa história é importante esclarecer que os dados coletados ao longo do tempo se baseiam principalmente em depoimentos orais das pessoas da região do Terreiro. Uma das pessoas fundamentais para essa busca foi Pierre Verger. O fotógrafo nascido em Paris veio para Salvador e ali se estabeleceu. Dedicou sua vida a pesquisar e registrar a cultura da Bahia, como a capoeira e o candomblé. Suas fotos, além de belíssimas, são documentos históricos que revelam muito do Recôncavo Baiano durante o século XX. Ao buscar esse resgate da história de Iyá Nassô ele ajuda a reconstruir a memória dessa tradição. Mas há também pesquisas que buscam fontes documentais mais específicas, o que revela detalhes da vida de Iyá Nassô. Damos destaque para a pesquisa "Marcelina da Silva e seu mundo: novos dados para uma historiografia do candomblé de Ketu" feita por Lisa Earl Castillo e Luis Nicolau Parés. 

Francisca da Silva juntamente de seu companheiro José Pedro Autran faziam parte do grupo de ex- escravizados que conseguiram uma ascensão econômica de sua época chegando a possuir inclusive outros escravos. Muitas das informações sobre Iyá Nassô estão registradas no testamento de Obatossi, Marcelina da Silva, que herdou o Terreiro da Casa Branca. Marcelina anteriormente era escrava de Iyá Nassô e esse ponto traz uma discussão controversa. Um dos argumentos usados para subestimar o período da escravidão é dizer que "ah, mas em África também haviam escravos. Nos quilombos haviam pessoas escravizadas". De fato, a escravidão é uma prática muito anterior a colonização no Brasil e nas Américas. A escravidão está presente em culturas de povos do mundo todo. O termo "escravo" vem de "slave" ou “eslavo” denominação étnica de povos da Europa Central e Oriental. Uma pessoa poderia ser escravizada por várias razões como guerras, dívidas etc. E em alguns casos havia a possibilidade de se tornar livre novamente. Uma grande diferença entre a forma de escravidão realizada em África e a adotada no Brasil, por exemplo,  é o processo sistemático de destruição dos povos sob a justificativa de inferioridade racial. Não mais se escravizava alguém por perda em campo de batalha, mas com a certeza de que aquele povo não tinha nem mesmo alma. A escravidão reproduzida pelos povos africanos já em terras brasileiras faz referência ao que já era praticado no continente africano bem antes dos colonizadores. Na época de Iyá Nassô, século XIX, já eram vistos alguns escravos alforriados que eventualmente também tinham posse de escravos, mas é importante deixar claro que era uma relação diferente da praticada pelos colonizadores.  Na documentação existente sobre a vida de Iyá Nassô e seu companheiro é possível concluir também que eles foram responsáveis pela alforria de muitos desses escravos.

A casa onde Iyá Nassô vivia na Freguesia do Passo, Ladeira do Carmo, na cidade de Salvador, era local de frequente encontro para o culto de Xangô, orixá de quem é sacerdotisa. Sua casa com o passar do tempo se tornou referência espiritual da região:

“Sabemos, por outro lado, que Iyá Nassô era o título ritual usado pela sacerdotisa encarregada do culto de Xangô na casa do alafin (rei) de Oyó. A aparente centralidade da devoção ao orixá do trovão na casa dessa família e os vínculos familiares com Oyó reforçam ainda mais a hipótese de ser Francisca da Silva a lendária Iyá Nassô. As festas celebradas na Ladeira do Carmo aconteciam “há muito tempo”, o que sugere que naquele lugar existia um candomblé nagô dedicado a Xangô, provavelmente liderado pela sacerdotisa que possuía o cargo de Iyá Nassô.”
(CASTILLO; PARÉS, p 12 , 2007) 

Depois de alguns anos, conta-se que Iyá Nassô teria feito uma viagem à África para buscar suas raízes espirituais. Há dois trechos da pesquisa de Lisa Castillo e Luis Parés que desvendam alguns pontos que envolvem a história dessas viagens. O primeiro deles firma a importância dessa jornada para a formação religiosa de Iyá Nassô:

"Essa travessia para a Costa da África, realizada no fim de 1837 por Marcelina da Silva e sua filha, Maria Magdalena, é, a todas as luzes, a mesma viagem tão zelosamente preservada na memória coletiva dos terreiros. Todavia, se desse retorno também participou Iyá Nassô, como afirma a tradição oral, parece quase impossível não identificá-la com Francisca da Silva, a líder do grupo. Isso implicaria que essa africana, de que Marcelina lembrara no seu testamento cinco décadas depois, era, além de sua senhora, também sua ialorixá." 

(CASTILLO; PARÉS, p. 9 , 2007) 

No começo do século XIX houve um forte movimento de volta para o continente africano por certa parte da população negra. No Benim inclusive há um termo para definir esses povos que é “agudá” que significa “os retornados”. Em seguida, o texto narra um pouco sobre como o  contexto da época pode ter influenciado na ida de Iyá Nassô para a Costa da África. O ano de 1835 foi marcado pela Revolta dos Malês. Além da busca por conhecimentos religiosos, especula-se também que essa viagem aconteceu devido a perseguição que a família de Iyá Nassô estaria sofrendo pelo envolvimento de seu filho na Revolta dos Malês:

“A tradição oral sustenta que Marcelina e Iyá Nassô teriam retornado à África com o intuito de aperfeiçoar seu conhecimento religioso e trazer de volta outros sacerdotes. Sem descartar a possibilidade destas intenções, não podemos deixar de levar em conta a conjuntura política na Bahia, naquele tempo. Dois anos apenas tinham-se passado desde a revolta dos malês e, como demonstra João José Reis, o período após o levante foi uma época de vulnerabilidade, de perseguição e até de terror para a comunidade africana, sobretudo para os nagôs. A polícia invadia seus domicílios subitamente e os prendia de forma arbitrária. A mera posse de qualquer papel escrito em árabe era considerada evidência de participação na rebelião. Nesse período, milhares de africanos libertos deixaram a Bahia para retornar ao continente-mãe, alguns deportados, outros fugindo das novas leis que restringiram seus direitos. ”

(CASTILLO; PARÉS, p. 41 , 2007.) 

Sobre seu retorno não se sabe ao certo. Alguns dizem que ela ficou no continente africano e de lá nunca mais voltou, mas também há quem diga que Iyá Nassô voltou para Salvador dando continuidade ao culto de Xangô em sua Casa. Outro personagem importante da história é o babalaô Bamboxê Obitikô. Há histórias sobre ele ter sido trazido para o Brasil na viagem de volta da África por Marcelina da Silva.

 “Como foi dito, algumas versões da tradição oral contam que Iyá Nassô voltou à África em companhia de Marcelina e lá faleceu. Marcelina regressou então com a ‘herança’ (de bens e de cargos) e assumiu a liderança do Engenho Velho”. De fato, após 1837, não achamos qualquer referência nos arquivos da Bahia a Francisca da Silva ou a José Pedro Autran, o que reforça a tese de que eles ficaram na África. Todavia, em meados da década de 1840, começam a aparecer documentos em nome de Marcelina da Silva, sugerindo que ela permaneceu vários anos na Costa antes de retornar. Ignoramos quando ou de que forma conseguiu regressar à Bahia, pois, após a revolta dos malês, a entrada de africanos libertos estava proibida por lei, mesmo que houvesse frequentes exceções. Embora também não saibamos se ela retornou junto com o babalaô Bamboxê, como sustenta a tradição oral, o que parece claro é que deixou sua filha Magdalena na Costa e que esta só voltou ao Brasil anos depois, já adulta. ”

(CASTILLO; PARÉS,  p. 125 , 2007) 


No testamento de Iyá Nassô ela deixa o Terreiro de herança para Marcelina da Silva. Obatossi, que também era sua filha espiritual, e se tornou a segunda Ialorixá da Casa. Obatossi, também sacerdotisa de Xangô e assumiu essa liderança que foi sucedida em sequência por Iyá Omoniquê, Iyá Ursulina, Iyá Oin Funquê, Iyá Maria Deolinda, Iyá Oxum Niquê etc.

Ilê Axé Iyá Nassô Oká- Terreiro Casa Branca do Engenho Velho

Testemunha da história de um povo, o terreiro fundado pelas três mulheres é parte da história da Bahia e de todo povo brasileiro. O mais antigo templo afro-religioso foi fundado na barroquinha nos fundos de uma igreja e depois devido à grande repressão contra com os povos negros foi levado para o Engelho velho e lá se encontra até hoje. O Ilê Axé Nassô Okâ tem enquanto seu principal símbolo a coroa de Xangô e uma forte ligação com Oxóssi a quem o terreno é consagrado exemplificando a íntima ligação entre o Ilê Axé com as cidades de Oió e Ketu, que foram reinados por Xangô e Oxóssi respectivamente, orixás muito presentes nas tradições e história da casa.  

 O Ilê Axé Nassô Okâ foi descrito pelo poeta Francisco Alvim (1984) como “A MÃE DE TODAS AS CASAS” e não é pra menos, para além de ser reconhecido como a primeira casa de orixá fundada no brasil é da fundação do Terreiro Casa Branca que sai nomes de suma importância para o candomblé no Brasil, como Ialorixá Maria Júlia da Conceição Nazaré, matriarca do Terreiro do Gantois, e a Ialorixá Eugênia Ana dos Santos, matriarca do Axé Opô Afonjá. E tantas outras que enraizaram a partir dali e foram para muito além da Bahia. A mãe de todas as casas teve sua importância reconhecida dentro e fora do terreiro:  

“O valor da produção cultural do povo-de-santo da Casa Branca do Engenho Velho é amplamente reconhecido por intelectuais de renome; como já se viu, a restauração da Praça de Oxum foi feita com base em projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, que o presenteou à comunidade do templo de Iyá Nassô; artistas, escritores e cientistas, a exemplo de Carybé, Chico Buarque, Jorge Amado, Gilberto Gil, Francisco Alvim, José Carlos Capinan, Caetano Veloso, Pedro Agostinho, Abdias Nascimento, Elisa Larkin Nascimento, Joel Rufino, Emerson Andrade Sales, Naomar Monteiro de Almeida Filho, Débora Nunes e muitos outros já deram testemunho de seu respeito por esta Casa, que é o primeiro monumento negro a ser reconhecido como patrimônio histórico do Brasil e o primeiro templo de um culto de origem africana a ter tal reconhecimento nas Américas (SERRA,2005). 

(SERRA, p. 13, 2008) 

 A luta pelo reconhecimento e defesa do Ilê Axé resultou no tombamento do Ilê Axé Nassô Okâ pelo IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e foi declarado como patrimônio material nacional. Foi o primeiro terreiro do Brasil a receber tal reconhecimento. O ato de patrimonialização do Terreiro Casa Branca do Engenho Velho identifica esse espaço como peça importante da cultura afro-brasileira conservando assim sua história e tradição. Esses espaços vão muito além de construções físicas. São espaços que zelam pela memória, tradição e da espiritualidade afro-brasileira. 

A hierarquia, a ancestralidade e o respeito são princípios inegociáveis dentro das tradições de matriz africana, onde os cultos e organizações são fortemente marcados pelo protagonismo feminino. Os terreiros têm e tiveram um papel fundamental nas vidas das mulheres, que se organizavam nesses espaços de forma política e econômica, garantindo o sustento das famílias e a independência financeira, as baianas do acarajé e as quituteiras são uma grande expressão disso. As grandes sacerdotisas, mulheres reconhecidas e imponentes no campo religioso e na organização civil, mulheres empreendedoras e de grande liderança são as “Mulheres de partido alto”, que marcam sua presença vital no Ilê Axé Nassô Okâ. O Terreiro Casa Branca do Engenho Velho transcende seu espaço físico e as relações nascidas ali vão junto, é formado uma família, a família de santo a qual se estabelece vínculos efetivos, relações de muita cumplicidade e companheirismo que entrelaçam todas as esferas do plano material e imaterial. 

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quarta-feira, 7 de abril de 2021

Fundamentos ancestrais


Link da 1⁰ Edição


Certamente você já ouviu aquela conversa de que a capoeira foi criada no Brasil como uma forma de defesa contra os maus tratos decorrentes da escravidão. Que os negros forjaram a luta nas senzalas e a disfarçaram em dança a fim de evitar retaliações e garantir a continuidade de sua prática.  

 

Um mito de origem que ainda é bastante difundido e traz uma mistura de desinformação e ingenuidade. Primeiro porque sugere uma invenção da capoeira, desconsiderando tradições ancestrais anteriores ao processo de colonização. Segundo porque é muito difícil acreditar que esta prática pudesse passar desapercebida dos olhares das autoridades por apresentar aspectos lúdicos e artísticos, supostamente incorporados para essa finalidade. 

 

Imagine, lá pelos idos do século XVIII, dois negros jogando capoeira e sendo abordados por um capitão do mato, os mesmos se explicam dizendo que aquilo não é luta e sim uma dança e assim são liberados para continuar sua prática. Numa época em que todas as manifestações culturais africanas eram duramente perseguidas e reprimidas, uma cena como esta parece ser muito improvável. 

 

Não é nossa intenção negar a importância da capoeira naquele momento enquanto uma opção de defesa pessoal ou até mesmo uma alternativa lúdica para amenizar as angústias do cativeiro, mas sim, contestar um provável ponto de origem ou criação desta prática e entender o desenvolvimento da capoeira no Brasil como um processo dinâmico de trocas culturais, que guarda suas raízes do outro lado do Atlântico. Além disso, chamar a atenção para que “estórias” que fazem parte do inconsciente coletivo na capoeira possam ser repensadas e não mais difundidas sem reflexão. 

 

O continente africano, atualmente, possui 54 países e cerca de 1 bilhão de habitantes, povos de diversas etnias e culturas que ainda preservam muitas de suas tradições. Apesar de possuírem características próprias e bastante singulares, é possível observar dentro desta diversidade aspectos que os aproximam, seja no idioma, nos costumes, em suas crenças e até mesmo na gestualidade de suas práticas corporais.  

 

Essas semelhanças não são meras coincidências e podem ser entendidas através da ancestralidade. Certamente, se percorrermos a árvore genealógica desses povos, distintos e distantes uns dos outros, encontraremos ancestrais em comum, que em determinada época conviveram e compartilharam seus saberes.  

 

Pensar através da perspectiva da ancestralidade nos faz entender que as coisas não são criadas do acaso, que por trás de todo ponto inicial existe uma longa história. Sendo assim, no intuito de compreender o processo de desenvolvimento da capoeira, analisamos algumas práticas marciais relativas ao continente africano, tanto aquelas desenvolvidas em solo africano quanto aquelas sistematizadas nas colônias, em busca de fundamentos em comum que as estruturam.

N’Golo - Frequentemente lembrado por sua semelhança com a capoeira, o N'golo é uma luta ritmada praticada pelos jovens rapazes do povo Mucope, na região sul de Angola. O N’golo faz parte da tradição da festa da puberdade, um rito de passagem chamado Efundula, que marca a transição da mocidade para a vida adulta das mulheres.  

 

A palavra N'golo na língua Kikongo, falada em diversas regiões de Angola e Congo, significa força, poder, mas também faz alusão à zebra e à forma de combate desse animal, que é mimetizada pelos jovens lutadores durante o Efundula, por esse motivo o N’golo também é conhecido como dança da zebra. Segundo a tradição, o lutador que se sair vitorioso na disputa poderá escolher sua companheira dentre as jovens iniciadas, sem a necessidade de pagar o dote.

 

A disputa se dá em um círculo formado por cantadores, lutadores e a comunidade, que entoam cantos de chamada e resposta acompanhados por palmas sincronizadas, estabelecendo o ritmo e a atmosfera no local. Os combatentes, no centro da roda, entram em disputa utilizando-se, sobretudo, dos pés. Chutes e rasteiras marcam poderosos ataques, respondidos com saídas acrobáticas e movimentos ágeis que garantem uma boa defesa e preparam o contra-ataque.  

 

Laamb - Tradicionalmente praticada no Senegal e na Gâmbia, a Laamb talvez seja a luta mais popular de toda a África. Uma paixão nacional que traz consigo séculos de histórias e conhecimentos. Os golpes são desferidos a partir de agarrões, através dos quais os combatentes buscam derrubar seus oponentes. É vitorioso aquele que conseguir fazer com que o adversário caia ou toque com os joelhos, costas ou mãos sobre o chão. Existe uma outra vertente do Laamb em que os lutadores podem, também, golpear com as mãos. Por esse motivo é comum fazerem uma analogia ao pica-pau, que de forma ligeira e certeira 'bica' seu oponente. 

 

O combate, que ganhou caráter esportivo e movimenta grandes eventos por toda nação pode ser decidido em questão de minutos, porém, é precedido por um longo período preparação física e espiritual, O ritmo é de grande importância para todo o ritual e cada combatente tem seu próprio grupo de tocadores de tambor. Na noite que antecede o combate, os lutadores e os instrumentos passam por um processo de proteção espiritual. Patuás e outros objetos pessoais do próprio lutador são colocados dentro dos tambores trazendo proteção e boa sorte.  

 

A relação espiritual é intrínseca à Laamb, não há como negligenciar essa dimensão durante o ritual, seja em eventos esportivos ou no interior das aldeias, onde geralmente acontece. A comunidade se reúne em círculo, onde cantam, dançam e escutam histórias e mitos contados pelos mais velhos e sábios dali. Os cantos e os contos trazem histórias das colheitas, disputas por terras e um passado glorioso, no intuito de motivar o lutador. Os tambores manifestam toda a preparação e colocam o corpo dos lutadores em movimento. Estes exibem sua força e coragem ao adversário através de uma dança, que precede o combate. O ritual envolve a todos os presentes, que ao som de palmas e gritos de torcida emanam sua energia aos lutadores. 

 

Evala: A Evala é uma prática marcial relativa ao Togo, país da costa ocidental da África. Um importante ritual do povo Kabyè, que marca a passagem dos meninos para a vida adulta.  A cerimônia acontece durante duas semanas do mês de Julho. Antes da luta em si, a preparação é árdua e longa, envolvendo jejum, escarificação, abstinência sexual, subida a montanhas, sacrifícios, conexão espiritual através da invocação dos antepassados por rezas e oferendas. 

 

No momento da luta a comunidade se reúne em uma grande roda onde os meninos podem permanecer por horas. A luta é acirrada e os golpes principais são agarrões e empurrões para derrubar o oponente no chão. Um jovem passa cerca de três anos lutando para seguir até as próximas etapas da iniciação para a maturidade.

 

Além da preparação para a vida adulta, a cerimônia vem como solução para conflitos que por vezes culminavam em guerras. O que antes era um rito da população local, hoje atrai pessoas do mundo todo, o que fez com que esse ritual de passagem ganhasse ainda mais o caráter festivo.

 

Danmyé / Ladja - A Ilha de Martinica passou por um processo severo de colonização francesa marcado pelo tráfico negreiro e pela quase total dizimação dos povos nativos. Os descendentes de africanos constituem a grande maioria da população local. As particularidades da sociedade colonial estruturada ali fomentaram o desenvolvimento da Ladja ou Danmyé, uma luta ritmada ao som de tambores.  

 

Sua prática não é ligada, necessariamente, a um ritual. O que não implica dizer que não haja uma ritualização no seu modo de fazer. O jogo se dá no formar-se de uma roda que é regida por toques de tambores, cantos e palmas. A Ladja também tem a característica da vadiação, da enganação. Os combatentes, no centro da roda, fazem a leitura um do outro para acionarem seus improvisos, suas brincadeiras e é claro, os seus golpes. O repertório de movimento envolve o corpo como um todo. Os golpes se alternam entre agarrões, rasteiras, tapas, coices, cabeçadas.  

 

Os praticantes se preparam física e espiritualmente para entrar em jogo. Em seus relatos, afirmam a busca por uma conexão com seu eu interior e sua ancestralidade. Nesse sentido, a música tem um papel fundamental pois, além de ditar o ritmo e o andamento do jogo, também facilita essa conexão. Muitos lutadores afirmam entrar em estado de transe durante a luta. 

 

Kalinda - Nas ilhas de Trindade e Tobago existe uma prática marcial denominada Calinda ou Kalinda, que remete ao período da colonização, sendo praticada pelos descendentes dos povos escravizados levados às ilhas para trabalhar nas plantações de tabaco e cacau. 

 

De movimentação ágil a Kalinda é praticada ao som de tambores e cantos, que orientam os lutadores e o próprio ritual. É uma luta em que os oponentes se utilizam de um bastão, acionado tanto para a defesa quanto para o ataque. Os lutadores, embalados pela musicalidade, buscam esconder as intenções dos ataques através de expressões e movimentos dissimulados. A Kalinda é uma prática comumente presente nos festejos de carnaval das ilhas.  

 

O uso de bastões é observado em algumas outras manifestações culturais de matriz africana como: a esgrima de facão e bastão (Colômbia), o Thatib (Antigo Egito), o Nguni (África do Sul) e o Maculelê (Brasil). É interessante notar que essas práticas com bastões estão relacionadas ao ambiente rural, sendo desenvolvidas por camponeses, pastores e trabalhadores da terra a partir de sua interação com o meio onde estão inseridos. 

 

As descrições acima apresentam várias semelhanças com a capoeira: o respeito à ancestralidade, a simultaneidade do ritual e do jogo durante a prática, a utilização do espaço em roda, a ligação espiritual e etc... 

 

Para fins deste texto, destacamos outras duas: a musicalidade e a gestualidade, pois se relacionam diretamente ao disfarce da luta em dança. Uma característica essencial da capoeira interpretada de forma equivocada pelo mito de origem, já citado, o qual negligencia a importância de elementos fundamentais que caracterizam a tradição. 

A musicalidade, sobretudo percussiva, dá vida e movimento a grande parte dessas lutas. É um fundamento presente em vários rituais e práticas corporais africanas, desde atividades laborais como as cantigas das lavadeiras e o processo de pilar / socar o milho até cerimônias religiosas. Na capoeira, a musicalidade tem papel fundamental, estimula os movimentos, dita o ritmo dos jogos, é elemento de comunicação ritual e de ligação ancestral.  

 

As mandingas e pantomimas se apresentam no intuito de ludibriar o oponente, não surgem como uma alternativa a mascarar a prática marcial das autoridades. São elementos anteriores ao processo de escravidão, presentes tanto nas práticas relativas às colônias quanto naquelas encontradas no continente africano, que não enfrentaram as perseguições e censuras impostas pelo sistema colonial. 

 

A capoeira é luta e dança, é ritual e vadiação, é ação e memória. Uma parte da cultura de matriz africana que reflete o seu todo, pois está alicerçada nos fundamentos que a constitui. Fundamentos ancestrais recombinados e adaptados à realidade de seu tempo e espaço que possibilitaram o desenvolvimento dessa prática em solo brasileiro.


Nesse sentido, a descoberta de um ponto de origem para a capoeira soa como um trabalho irrealizável. Como diria mestre Pastinha: “seu princípio não tem método e o seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista”.  


Lucas Machado Goulart

Marcela Ferreira da Silva

Vitória Brasileira


Texto extraído da 1ª edição da revista "Por Dentro da Roda", fevereiro de 2021